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A bola rolou no centenário de Barretos: Palmeiras 1 x Corinthians 0

 A bola rolou no centenário de Barretos: Palmeiras 1 x Corinthians 0

Barretos, 29 de agosto de 1954. A cidade estava em festa: cem anos de história, e os organizadores decidiram que futebol combinava com aniversário, e, cem anos deveria receber uma disputa a altura. Para marcar o centenário, nada menos que um Corinthians x Palmeiras, o maior clássico do país, trazido de mala e cuia para o interior.

Os jornais explodiram “Pela primeira vez na história do futebol paulista, os mais velhos e acirrados adversários disputarão um jogo fora da capital”. Correio Paulistano.

Manchete do Correio Paulistano, 26.Ago.1954. Fonte: Biblioteca Nacional.

O Palmeiras veio de trem, saíram da capital no noturno das 21h, do dia 27 de agosto, no dia anterior passaram a tarde treinando no Parque Antártica, com o resultado de 5 x 0, entre efetivos e reservas, conforme o Diário da Noite assim registrou. Estavam animados, o jogador Ney era o trunfo do time.

Estádio da Rua 32. (Onde hoje é o Terminal de Integração). Acervo: Sueli Fernandes.

O jogo lotou o Estádio e “agradou plenamente, quer pela boa exibição de todos os valores dos dois conjuntos, quer pelo empenho destes em busca da vitória”. O primeiro tempo terminou empatado, sem abertura de vantagem. Na fase final, Rodrigues colocou o Palmeiras em vantagem, não permitindo que o alvinegro lograsse neutralizar essa superioridade. 

Manchete do Correio Paulistano, 27 de agosto de 1954. Fonte: Biblioteca Nacional.

Quem teve a ideia do jogo? Izidoro Witzel, descrito pelo cronista Aurélio Campos, no Diário da Noite, de São Paulo, como um “adorável maluco”. E maluco, convenhamos, ele foi: decidiu trazer nada menos que Corinthians e Palmeiras para disputar um amistoso em Barretos. O Derby Paulista, com todos os seus craques, pela primeira vez fora da capital.

A ideia parecia impossível. A Câmara Municipal, pragmática e pouco entusiasmada, negara até mesmo verbas para a ornamentação da cidade. Mas Izidoro Witzel não era homem de se render a negativas. Pelo contrário: transformou o “não” em combustível para sua ousadia. Convocou amigos, mobilizou vizinhos, bateu de porta em porta, recolheu pequenas contribuições, moedas, favores e até promessas. Com essas “migalhas”, como registrou Aurélio Campos, vestiu Barretos de festa, mudando-lhe a fisionomia. Mas Izidoro queria mais. Não se contentava com bandeirinhas e fanfarra. Queria algo que fosse lembrado por gerações, um feito que colocasse Barretos no mapa do futebol paulista. E conseguiu: articulou o que parecia impossível, trazendo o Derby para o coração do sertão.

A procura por ingressos foi imediata e avassaladora. O boca a boca correu mais rápido que qualquer anúncio oficial: Corinthians e Palmeiras, juntos, em Barretos! Arquibancadas improvisadas brotaram como por encanto, erguidas com madeira, martelos e boa vontade. E, num gesto generoso, as gerais foram entregues gratuitamente ao povo, garantindo que ninguém ficasse de fora da festa. O resultado foi um estádio abarrotado, gente de todos os municípios vizinhos se acotovelando para ver de perto o espetáculo. Crianças nos ombros dos pais, senhoras abanando-se com leques improvisados, torcedores vibrando como se estivessem no Pacaembu. Por uma tarde inteira, Barretos deixou de ser apenas uma cidade interiorana e se transformou em palco de um acontecimento sem precedentes, vivendo intensamente o privilégio de sediar o maior clássico do futebol paulista.

Manchete do Diário da Noite, São Paulo, 01.Set.1954. Fonte: Biblioteca Nacional.

No campo, quem sorriu foi o Palmeiras: vitória por 1 a 0, gol de Rodrigues, coroando um excelente passe de Jair. Mas, para os barretenses, o placar era detalhe. O verdadeiro triunfo estava em ver, com seus próprios olhos, o maior clássico do futebol paulista acontecer ali, no coração do sertão. Era como se a cidade tivesse se tornado, por uma tarde, a própria capital do futebol. O árbitro foi Antônio Musitano.

Milton Peruzzi, a célebre “Voz dos Esportes” da Rádio Difusora, também desembarcou em Barretos para testemunhar aquele feito improvável. Mais do que o jogo em si, o que lhe chamou atenção foi a ousadia contagiante de Izidoro Witzel, capaz de transformar descrença em festa e ceticismo em arquibancada lotada. Peruzzi voltou contando a história com entusiasmo, e foi graças a ele que Aurélio Campos pôde registrar, em sua crônica, a saga do “adorável maluco” que fez o Derby Paulista atravessar os trilhos e chegar ao sertão.

Entre tantas histórias que nasceram daquele 29 de agosto de 1954, uma delas ganhou contornos de afeto e identidade. Manuelito, zagueiro do Palmeiras, barretense de nascimento, foi convidado a participar do quadro “Perguntas e Respostas” do jornal Mundo Esportivo, de São Paulo. A pergunta era simples, quase banal: Qual a sua melhor gargalhada? A resposta, porém, veio carregada de emoção e memória: “A nossa vitória sobre o Corinthians, na minha cidade natal, Barretos.”

A gargalhada de Manuelito não era apenas de alegria pelo gol de Rodrigues ou pela vitória palmeirense. Era o riso de quem viu sua terra natal vibrar como nunca, de quem testemunhou vizinhos, conhecidos e familiares ocuparem arquibancadas improvisadas para assistir ao maior clássico do país. Era o riso cúmplice de quem sabia que, por uma tarde, Barretos tinha se tornado o centro do universo esportivo paulista.

E como se a história gostasse de brincar com coincidências, hoje quem preside o Barretos Esporte Clube é Marcelo Rios Witzel. Ao ver o nome de Marcelo à frente do BEC, é impossível não lembrar da ousadia de Izidoro, aquele “adorável maluco” que acreditou que Barretos merecia mais do que uma festa — merecia um espetáculo. É como se o fio da memória se costurasse de novo, mostrando que a herança mais valiosa não está nos troféus, mas na coragem de sonhar grande.

Curioso é que, naquele mesmo ano, o Corinthians levantaria o Paulistão, mas em Barretos, quem levantou a taça foi o rival. Os organizadores, claro, não se importaram: para eles, o verdadeiro triunfo era ter transformado a cidade em palco de um clássico histórico.

E assim, entre desafios, provocações e histórias que seriam contadas por décadas, Barretos ganhou mais que um jogo: ganhou a honra de ser o primeiro interiorano a receber o Derby. Um presente centenário que, convenhamos, foi muito mais divertido que qualquer discurso solene.

Finalizo reiterando meus sinceros agradecimentos ao confrade Jota Carvalho, pela generosa oferta da fotografia do Antigo Estádio Municipal, que enriquece e dá vida a esta memória.

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