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Barretos em Cartões-Postais: janelas da memória

 Barretos em Cartões-Postais: janelas da memória

Barretos, no início do século XX, descobriu nos cartões-postais uma forma de se apresentar ao mundo. Era preciso mostrar que a cidade se modernizava, que suas praças, igrejas e avenidas refletiam progresso. Os postais, cuidadosamente produzidos, exibiam fachadas imponentes e ângulos calculados para seduzir o olhar. Mas, como toda vitrine, escondiam o que não se queria mostrar: ruas de terra, casas modestas, cantos menos nobres. O postal era, ao mesmo tempo, documento e propaganda, registro e artifício.

Nesse período, os cartões-postais tornaram-se verdadeiras ferramentas de marketing urbano. Diversos exemplares retratavam ruas, comércios e casarios, compondo a imagem de uma Barretos que se modernizava e se promovia por meio da fotografia impressa. Dois belos casarões, ainda preservados, destacam-se nesse cenário. Construídos em 1912, situam-se na esquina da avenida 23 com a rua 18. O palacete que hoje pertence à associação Os Independentes foi erguido para residência do Major Elyseu Ferreira de Menezes e permanece como testemunha da riqueza ornamental de sua época. O casarão em frente, por sua vez, ostentava cenas paisagísticas pintadas nas paredes externas, infelizmente soterradas por camadas de tinta ao longo dos anos. As molduras, porém, resistem como guardiãs silenciosas, lembrando que ali já se abrigaram belas obras de arte. Mais tarde, o edifício ganhou uma platibanda, seguindo os modismos arquitetônicos da época. Afinal, até os casarões gostam de estar na moda.

Postal dos casarões da Av. 23 esquina com a rua 18. Acervo: SF.

Os cartões-postais revelavam uma Barretos em plena metamorfose, uma cidade que se despedia lentamente de sua vocação rural para vestir-se com os trajes da modernidade. Nas imagens, surgiam estabelecimentos comerciais em expansão e fachadas que anunciavam progresso, compondo o retrato de uma urbe que se queria promissora. Mais do que simples registros, esses postais funcionavam como espelhos seletivos: mostravam o que deveria ser lembrado e ocultavam o que não cabia na narrativa do progresso. A repetição insistente das mesmas praças, casarões e avenidas, escolhidos e divulgados em massa, acabava por fixar uma memória coletiva e uma identidade urbana idealizada. Assim, cada cartão não apenas descrevia Barretos, mas moldava a forma como ela seria reconhecida, celebrada e, em certa medida, sonhada.

Postal de 1917. Rua 20 esq. Av. 21. Acervo Museu Ruy Menezes.

Nas imagens, vemos uma Barretos que se erguia entre o passado rural e o desejo de modernidade. Cada fotografia impressa era um fragmento de história, um pedaço de memória congelado.

Com sorte, encontramos alguns postais que ainda trazem no verso, as mensagens: declarações de amizade, notícias breves, carinhos que atravessavam quilômetros. O postal não era apenas imagem; era também palavra, gesto, elo entre quem enviava e quem recebia. Havia ainda os “amigos-postais”, correspondentes que trocavam cartões como quem troca confidências. Essa prática ampliava horizontes, permitindo conhecer lugares e pessoas sem sair de casa. E havia os colecionadores, guardiões de um hábito cultural que hoje parece quase esquecido. Em tempos de redes sociais, quando imagens circulam em segundos para milhões de desconhecidos, pensar que um postal era cuidadosamente escolhido, escrito e enviado a alguém específico nos devolve a dimensão do afeto.

Tenho a alegria de possuir uma coleção recebida há cerca de dez anos, organizada com esmero pela senhora Ivete Nunes, mãe de meu amigo Lucas Mattar. São álbuns inteiros, repletos de postais, muitos das décadas de 60, 70 e 80 — alguns temáticos, outros retratando Barretos em sua juventude urbana. Ao folheá-los, é como se as páginas se transformassem em janelas: vemos praças que mudaram de forma, ruas que se alargaram, prédios que desapareceram. Cada postal é uma viagem: pelo mundo, pelo Brasil e, sobretudo, pela alma de Barretos. Os álbuns, além de guardarem memórias, materializam outra paixão de sua colecionadora: viajar.

Postal de 1962. Praça Francisco Barreto.

Hoje, em tempos de e-mails e mensagens instantâneas, os jovens talvez não compreendam o prazer que havia em receber um cartão-postal. Mas quem já recebeu sabe: era como segurar um pedaço do mundo nas mãos, uma prova tangível de que alguém pensava em você.

Os cartões-postais de Barretos são mais do que um retângulo de papelão, neles repousam o peso da memória, lembranças, saudades. Pequenos no tamanho, imenso no significado. São testemunhos de uma cidade que se reinventava, de pessoas que se comunicavam com ternura, de uma cultura que valorizava o gesto de escrever e enviar. São documentos históricos, mas também poesia. E, ao olhá-los hoje, percebemos que não são apenas imagens do passado: são convites para que continuemos a olhar o presente com o mesmo encanto, com a mesma vontade de registrar, compartilhar e eternizar.

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