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A renúncia de 1914: o teatro político de Barretos e suas ironias do destino

 A renúncia de 1914: o teatro político de Barretos e suas ironias do destino

Na crônica de hoje, viajaremos até 1914 para conhecer a história de um prefeito que em meio as responsabilidades do cargo, tomou a decisão rara: renunciar ao mandato.

 A cidade respirava política como quem respira o ar quente das tardes sertanejas. Cada esquina era palco de debates, cada jornal uma trincheira, cada gesto dos coronéis um sinal de guerra ou de conciliação. Nesse cenário, o protagonista era, mais uma vez, Silvestre de Lima, coronel respeitado, homem de letras e de ação, cuja figura se confundia com a própria pulsação da cidade. Foi ele quem, de forma inesperada, anunciou sua renúncia ao cargo de prefeito.

Não se tratava de fraqueza, tampouco de derrota. Era um gesto humano, íntimo, mas também político: acompanhar a esposa em tratamentos médicos e, ao mesmo tempo, manter-se ativo na vida pública. O arranjo institucional da época permitia soluções curiosas. Primeiro elegia-se a Câmara, e dela emergia o prefeito. Assim, bastava um consenso entre os vereadores para que o poder mudasse de mãos sem rupturas. João Machado de Barros, presidente da Câmara, assumiria o executivo; Silvestre, por sua vez, passaria a presidir o legislativo, tudo graças ao voto de seus pares.

O episódio ganhou contornos quase teatrais por um detalhe saboroso: a Câmara Municipal funcionava dentro do próprio Paço. Silvestre não precisou atravessar ruas nem enfrentar multidões. Bastou-lhe trocar de sala. Saiu do gabinete de prefeito e entrou no plenário como presidente da Câmara. Se houvesse plateia, teria rido da cena: o homem que renunciava ao poder apenas mudava de cadeira, sem perder o protagonismo. Era como se o palco fosse o mesmo, apenas com nova marcação de cena.

Edifício histórico onde funcionaram o Paço Municipal e a Câmara Municipal, testemunha da vida política de Barretos. Acervo: Museu “Ruy Menezes”.

Mas no novo posto enfrentou uma batalha intensa. Silvestre se viu diante da ameaça de mutilação territorial de Barretos: dois terços de sua área seriam destinados à criação do município de Olímpia. Não se opunha à emancipação da nova cidade, mas discordava da extensão proposta. Para ele, tratava-se de uma injustiça motivada por paixões partidárias e interesses pessoais, sobretudo os de seu adversário Antônio Olympio, que desfrutava de prestígio junto ao governo estadual.

A nova cidade nasceria com infraestrutura e benfeitorias construídas por Barretos, mas quem ficava com menos terra arcaria com a conta. Silvestre denunciou a desproporção em audiência com o governador e registrou sua posição em carta publicada no jornal O Estado de São Paulo. Nela, reafirmava sua disposição de renunciar a todos os cargos públicos, caso isso fosse necessário para evitar a “hedionda mutilação” do município.

Não foi atendido. A derrota, que resultou na perda de grande parte do território barretense, tornou-se a maior frustração política de sua carreira. Barretos, que até então se orgulhava de sua vastidão, viu-se reduzida em quase dois terços. Olímpia nascia robusta, herdeira de terras e benfeitorias, enquanto Barretos ficava com menos espaço e mais ressentimento.

Ao término do mandato, decepcionado, Silvestre transferiu-se para São Paulo. Carregava o peso de uma luta não vencida e a amarga constatação de que, diante de interesses pessoais e paixões partidárias, o bem coletivo podia ser facilmente sacrificado. Essa percepção feriu-lhe profundamente o espírito e levou o coronel a afastar-se da vida pública, dedicando-se à família e assegurando aos seus entes melhores condições de saúde e educação. Em São Paulo, fundou o Colégio Minerva, instituição que acolheu inúmeros filhos de barretenses e se tornou referência de ensino de qualidade.

Das curiosidades que cercam esse período, duas se destacam e revelam o sabor irônico da política local. A primeira diz respeito ao antigo distrito São João Batista dos Olhos d’Água, que em 1906 foi elevado à categoria de vila e recebeu o nome de Olympia, por indicação do engenheiro agrimensor responsável pela divisão territorial, John Reid. O gesto foi uma homenagem à sua afilhada, Maria Olympia, filha de Antônio Olympio. O nome, carregado de afeto familiar, atravessou os anos e se manteve quando a vila se transformou em cidade.

Maria Olympia, filha de Antônio Olympio, eternizada não apenas na fotografia, mas também no nome da cidade de Olímpia. Acervo: Museu “Ruy Menezes”.

Curiosamente, quando Silvestre de Lima assumiu a prefeitura em 1908, foi procurado por um grupo de apoiadores da Vila Olympia que lhe pediram a mudança do nome do local, já que lembrava a filha de seu adversário político. Vieram em caravana até Barretos, exigindo que o coronel apagasse da memória oficial o nome que evocava o rival derrotado. Mas Silvestre recusou terminantemente. Para ele, atender ao pedido seria uma vingança torpe, indigna de sua postura. O episódio revela não apenas sua grandeza moral, mas também sua inteligência política: preservar o nome era preservar a história, mesmo que marcada pela rivalidade.

A segunda curiosidade é ainda mais significativa: o primeiro grupo escolar de Barretos, inaugurado em 1912 e fruto das conquistas políticas de Silvestre, recebeu em 1950 o nome de seu maior adversário. Com o falecimento de Antônio Olympio, a edilidade decidiu homenageá-lo, rebatizando a instituição como Escola Estadual Cel. Dr. Antônio Olympio. O gesto, carregado de simbolismo, eternizou na fachada da escola não apenas a memória de um homem, mas também um paradoxo – tão saboroso quanto improvável — o construtor ficou nos bastidores, enquanto o adversário ganhou os créditos.

A fachada do antigo Primeiro Grupo Escolar, conquista de Silvestre de Lima que, em gesto irônico da memória política, acabou homenageando seu maior adversário, Antônio Olympio. Acervo: Museu “Ruy Menezes”.

Essas curiosidades revelam que a história não se escreve apenas com decretos e renúncias, mas também com ironias, homenagens e gestos inesperados. Em Barretos, até os nomes de cidades e escolas guardam o eco das disputas políticas, transformando cada detalhe em testemunho vivo de um tempo em que o poder trocava de mãos, mas nunca deixava de ser espetáculo.

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