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Apagão Docente: uma tragédia anunciada

 Apagão Docente: uma tragédia anunciada
  • Michela Rita é historiadora, gestora pública e professora, com MBA em Gestão Escolar.

O Brasil caminha para um déficit de 235 mil professores até 2040. Ao mesmo tempo, 58% dos estudantes que ingressam em cursos de licenciatura abandonam a formação antes da conclusão. Os números impressionam, mas não surpreendem. O chamado apagão docente não surgiu por acaso. Ele é resultado de décadas de desvalorização profissional, precarização do trabalho e abandono das políticas de valorização da educação pública.

Quem acompanha o cotidiano das escolas sabe que a crise já chegou. Em São Paulo, por exemplo, milhares de professores da categoria O vivem uma realidade marcada pela instabilidade. Mesmo exercendo as mesmas funções dos demais docentes, enfrentam contratos temporários, incertezas sobre permanência na rede, dificuldades para planejar a própria vida profissional e sucessivas mudanças nas regras de contratação. Como esperar que jovens escolham a docência quando observam profissionais experientes trabalhando sob condições cada vez mais precárias?

O problema não se resume aos salários, embora eles sejam parte fundamental da questão. Há sobrecarga de trabalho, adoecimento físico e emocional, excesso de burocracia, violência escolar, pressão por resultados e ausência de perspectivas de carreira. Enquanto isso, governos e setores do mercado insistem em apresentar soluções tecnológicas como resposta para problemas que são essencialmente humanos e políticos.

Mais preocupante ainda é o avanço da chamada uberização da docência. Plataformas digitais transformam professores em prestadores de serviço sem direitos trabalhistas, sem estabilidade e sem garantias mínimas de renda. O docente deixa de ser reconhecido como profissional da educação e passa a ser tratado como alguém disponível sob demanda, assumindo sozinho todos os custos e riscos do seu trabalho.

O apagão docente não é consequência da falta de vocação das novas gerações. É consequência da falta de valorização daqueles que escolheram ensinar. Nenhuma sociedade consegue construir desenvolvimento, justiça social ou democracia sem professores. Quando um país normaliza a precarização da docência, não está apenas perdendo profissionais. Está comprometendo o seu próprio futuro.

Ainda há tempo para reverter esse quadro. Mas isso exige coragem para enfrentar interesses econômicos, reconstruir carreiras atrativas, garantir condições dignas de trabalho e devolver aos professores o reconhecimento que lhes foi retirado. O apagão docente não é um fenômeno natural. É uma escolha política. E, como toda escolha política, pode ser transformada.

Redação

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