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O choque entre razão e fanatismo: por que Apocalipse nos Trópicos importa

 O choque entre razão e fanatismo: por que Apocalipse nos Trópicos importa

O vídeo oferece um primeiro olhar sobre o filme, que conta com depoimentos inéditos de figuras emblemáticas da política brasileira.

Apocalipse nos Trópicos é, para mim, um documentário não apenas interessante, mas necessário. Petra Costa expõe com precisão como o imaginário religioso evangélico — sobretudo o neopentecostal — se infiltrou de forma estruturada no projeto político da extrema-direita no Brasil. O filme revela a maquinaria que sustenta essa aliança: líderes carismáticos, discursos apocalípticos transformados em arma política e um público mobilizado pela lógica da guerra espiritual. Esse entrelaçamento não é tratado como acaso histórico, mas como construção deliberada que moldou decisões nacionais nas últimas décadas.

A presença de figuras como Silas Malafaia, Jair Bolsonaro e Lula em imagens de arquivo e entrevistas evidencia o alcance desse fenômeno. O documentário expõe, sem rodeios, a simbiose entre fé distorcida, poder institucional e irresponsabilidade — especialmente durante a pandemia de COVID-19. A crise do oxigênio em Manaus e a negação sistemática da ciência aparecem contrapostas a pregações inflamadas, demonstrando como a retórica religiosa pode legitimar políticas públicas desastrosas. A montagem e a fotografia intensificam essa sensação de vertigem, alternando o realismo político com metáforas visuais que reforçam a lógica de culto e seita.

A dimensão pessoal que Petra insere na narrativa adiciona profundidade. Sua inquietação, seu luto e sua busca por respostas tornam o filme mais do que um registro histórico; transformam-no em um ensaio sobre o choque entre razão pública e fanatismo religioso. A diretora não tenta manter um distanciamento artificial — e isso é uma virtude. Reconhecer a ameaça à laicidade, à democracia e ao debate civilizado é parte essencial da honestidade intelectual com que o documentário é construído.

Vejo Apocalipse nos Trópicos como uma obra que confronta o espectador com responsabilidade, sem subestimar quem assiste. Ao recusar o didatismo e confiar na força das imagens, o filme ilumina a gravidade do momento político brasileiro. Ele alerta para os riscos de permitir que dogmas substituam políticas públicas, que líderes religiosos ditam agendas de Estado e que o país continue avançando rumo a um modelo teocrático. É um filme fundamental, porque nos obriga a encarar o que muitos preferem não ver.

Ficha Técnica

Direção: Petra Costa
Roteiro: Petra Costa e equipe
Produção: Petra Costa e Alessandra Orofino
Fotografia: João Atala, Murilo Salazar e Pedro Urano
Montagem: Equipe de editores liderada por Bruno Lasevicius e Nels Bangerter
Trilha sonora: Rodrigo Leão
País: Brasil / EUA / Reino Unido
Ano: 2024–2025
Duração: 109 min
Gênero: Documentário político

Onde assistir

Netflix

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