Onde a verdade encontra a democracia.
DESDE 2015

Taverna do CLT: o ‘Fôlego geracional’ que une juventude e resiste em Barretos

 Taverna do CLT: o ‘Fôlego geracional’ que une juventude e resiste em Barretos

Em um cenário onde a juventude muitas vezes se vê à margem, buscando espaços para respirar e se expressar, surge um fenômeno crucial: o “fôlego geracional”. Recentemente, em Barretos, esse sopro de vida encontrou seu lar na Taverna do CLT, um bar na Rua Vinte que transcendeu a mera função de ponto de encontro. Ele se tornou um catalisador de conexão, unindo diversas tribos de jovens adultos de uma forma harmoniosa e pulsante, algo pouco visto na cidade nos últimos tempos.

A estância turística de Barretos, apesar do título, contrasta com uma realidade de ruas nem sempre vibrantes e a escassez de eventos populares. A intensa presença policial nas vias, por vezes, inibe reuniões espontâneas, levando a juventude a sentir-se sem um lugar de pertencimento. Enquanto a paisagem da cidade é dominada por estabelecimentos familiares, pouco receptivos aos interesses juvenis, ou adegas que incentivam o consumo isolado nas calçadas, a chegada da Taverna do CLT representou um abraço, um contraponto aos empreendimentos mais tradicionais.

A juventude encontrava somente os pontos tradicionais para se divertir. (Foto: L. R. Sautchuk)

Contudo, uma casa cheia, por si só, não eleva um local ao patamar de “fôlego geracional”. É preciso transcender alguns marcos, como explica o folclorista Santo Desatino (F. Diogo). “Quando você olha para as gerações passadas e para a cidade onde elas viveram, sempre vai ter aquele lugar onde ‘a vida’ de toda a geração em seus 20-30 anos aconteceu”, pontua Santo Desatino. Ele descreve como cidades, muitas vezes construídas por e para adultos, limitam a expressão juvenil em bares, ruas e festas. Nesse contexto, a Taverna do CLT se encaixa perfeitamente na definição do folclorista.

Para Lucas de Paula Pereira Filho, membro da autodenominada “Legião do Mal” e frequentador assíduo, a chegada da Taverna do CLT preencheu um vazio palpável. “Antes do bar surgir, nossos ‘rolês’ aconteciam em casa, em praças, ou em alguns eventos, mas as tribos não se misturavam e se uniam”, recorda Lucas. Ele enfatiza também sua admiração pela oposição política do bar, que vai contra os valores tradicionais da cidade, reforçando o papel do local como um ponto de confluência e resistência. Para Santo Desatino, “esse é o estopim de um ‘estouro’, um lugar rapidamente popular, sempre cheio, que os frequentadores nunca querem que feche, que dá uma nova vida na cidade para a juventude que estava espalhada e sem conexões antes por lá.” É o verdadeiro “fôlego” no sufocamento de uma necessidade vital por espaços que se conectem com os jovens.

Os pontos de vendas de bebidas noturnas são comuns na cidade. (Foto: L. R. Sautchuk)

Mas o papel da Taverna do CLT vai além do social. Profundamente envolvida com a cultura e a política, a Taverna se tornou um ponto de união e, notavelmente, de resistência. Em uma cidade frequentemente descrita como conservadora, o bar abrigou a fundação de uma frente de esquerda, promovendo eventos com figuras políticas influentes como Leonardo Grandini (PSOL). Além do ativismo político, o espaço serve de vitrine para a arte local, recebendo bandas e artistas da região, e amplificando vozes das resistências antirracistas, feministas e pró-LGBTQIA+. É nesse caldeirão de ideias e expressões que a juventude encontra não apenas um bar, mas um porto seguro para ser e se manifestar plenamente.

O local serviu de palco para o lançamento da frente ampla de esquerda. (Foto: L. R. Sautchuk)

O espaço físico da Taverna do CLT, embora pequeno e aconchegante, pulsa com uma energia contagiante. Antes de se tornar o que é hoje, o ponto já abrigava um bar, mas a mudança de direção trouxe uma nova alma ao local. As paredes, agora, são telas de expressão: uma delas, inclusive, foi dedicada para que os frequentadores deixem suas marcas com giz, escrevendo nomes ou mensagens, transformando o próprio bar em um mural coletivo de memórias. A vitalidade do lugar é tanta que, frequentemente, a animação transborda, com os jovens ocupando as calçadas ao redor, em conversas e celebrações que estendem o ambiente acolhedor da Taverna para a própria Rua Vinte.

O bar tornou-se espaço de encontro e acolhimento. (Foto: L. R. Sautchuk)
As paredes são telas de expressão para os frequentadores deixarem as suas marcas em giz. (Foto: L. R. Sautchuk)

No entanto, nem tudo são flores no florescer desse “fôlego geracional”. A popularidade e o barulho natural de um ponto de encontro tão vibrante, especialmente quando a juventude ocupa as calçadas, por vezes geram atritos. Já houve reclamações de vizinhos à polícia, um reflexo dos desafios inerentes à coexistência entre um espaço de efervescência juvenil e a tranquilidade residencial. Essa tensão ressalta o impacto profundo que a Taverna do CLT tem na dinâmica social e urbana de Barretos, evidenciando que a liberdade e a autoexpressão da juventude podem, em alguns momentos, colidir com as normativas e expectativas de uma cidade que, como apontou Santo Desatino, muitas vezes foi “construída para os adultos”.

As paredes são telas de expressão para os frequentadores deixarem as suas marcas em giz. (Foto: L. R. Sautchuk)

Bilhete deixado debaixo da porta. (Foto: L. R. Sautchuk)

A Taverna do CLT, em Barretos, prova que um espaço físico pode ser muito mais que paredes e balcões; pode ser a tela onde uma geração pinta suas cores mais vibrantes e respira seu fôlego mais genuíno, perpetuando memórias que desafiam o tempo e, acima de tudo, fornecendo o sopro vital para uma juventude que anseia por pertencer e se expressar.

Relacionado

Ops, você não pode copiar isto!