O movimento teatral barretense e a criação do Grupo Teatral Negro de Barretos
O movimento teatral barretense e a criação do Grupo Teatral Negro de Barretos
- Por Sueli Fernandes
A história do teatro barretense viveu um momento singular ao longo da década de 1960. Em meio às transformações sociais e culturais que marcavam o Brasil daquele período, um grupo de artistas locais passou a enxergar o palco não apenas como espaço de entretenimento, mas também como instrumento de expressão, representatividade e reflexão social. Foi nesse contexto que surgiram iniciativas fundamentais para a consolidação das artes cênicas em Barretos, entre elas o Teatro Experimental de Barretos (TEB) e o Grupo Teatral Negro de Barretos (GTNB).
Entre os protagonistas dessa trajetória destacou-se o escritor, dramaturgo e diretor José Expedito Marques. Em 8 de agosto de 1958, ele fundou o Teatro Experimental de Barretos, cuja primeira presidência foi exercida por Ruy Menezes, patrono do atual Museu Histórico, Artístico e Folclórico de Barretos. A estreia do grupo ocorreu em 23 de setembro daquele mesmo ano, com a encenação de Casa Fechada, de Roberto Gomes.
A partir daí, o Teatro Experimental de Barretos desenvolveu intensa atividade artística. Diversas peças foram levadas ao palco, incluindo textos escritos pelo próprio José Expedito, como Esqueleto Zero Hora, Largo do Rosário, 46 – Fundos e a peça infantil Coelhinho Cotó. As apresentações ultrapassaram os limites da cidade e circularam por diversas localidades do interior paulista e mineiro.
O reconhecimento veio rapidamente. Ao longo de sua trajetória, o grupo recebeu mais de uma dezena de premiações. Citam-se aqui apenas algumas delas: o prêmio de “Grupo Mais Homogêneo”, concedido em 1960 pela Federação Paulista de Teatro Amador pela montagem de Largo do Rosário, 46 – Fundos. ; o prêmio “Máscaras”, recebido em 1961 pela encenação de Via Sacra. No ano seguinte, em 1962, o barretense Luiz Carlos Arutim, que mais tarde alcançaria reconhecimento nacional como ator, recebeu dois prêmios por sua atuação como João Grilo em O Auto da Compadecida: um concedido pela Federação Paulista de Teatro Amador e outro pela Comissão Estadual de Teatro, por meio do prêmio “Governador do Estado”. Como decorrência dessa distinção, foi contemplado com uma Bolsa de Estudos na Escola de Arte Dramática de São Paulo, no curso de formação de atores; em 1963, José Expedito Marques foi premiado como melhor diretor pela Comissão Estadual de Teatro com o prêmio “Governador do Estado”, sendo também contemplado com uma Bolsa de Estudos na Escola de Arte Dramática de São Paulo, para o curso de Dramaturgia e Crítica.
Esse breve panorama evidencia a relevância de José Expedito Marques para o desenvolvimento das artes cênicas em Barretos. Observador atento da realidade social brasileira, o dramaturgo acreditava que o teatro deveria dialogar com as questões de seu tempo e representar a diversidade da sociedade.
Um exemplo dessa preocupação encontra-se em Largo do Rosário, 46 – Fundos. Conforme relato do próprio autor em Que Teatro É Este?, a peça foi inspirada na transformação do Morro do Esqueleto, favela localizada no Rio de Janeiro, em um conjunto habitacional. A trama gira em torno de Juca, integrante de uma quadrilha que passa a ser perseguido pela polícia após ser denunciado por uma de suas namoradas, Amélia, consumida pelo ciúme. A narrativa acompanha sua tentativa de fuga, explorando conflitos humanos e sociais característicos da dramaturgia brasileira daquele período.
Na montagem da peça, José Expedito recorreu a técnicas então comuns no teatro brasileiro, entre elas o blackface, prática em que atores brancos eram caracterizados para interpretar personagens negros. Frequentemente, essa escolha era justificada pela alegada ausência de atores negros disponíveis para os elencos.
O resultado, entretanto, foi objeto de controvérsias e críticas que o próprio dramaturgo soube considerar. Sensível às questões que lhe foram colocadas, José Expedito reconheceu as limitações daquela prática e concluiu que era necessário buscar outro caminho. Em vez de recorrer novamente a esse expediente, passou a investir na formação de atores negros capazes de representar seus próprios personagens e vivências. Com esse propósito, mobilizou amigos e colaboradores para tornar a iniciativa uma realidade.
Foi assim que, ao lado de José Pereira Neves, conhecido como Zé Preto, e de Leobino Neves, ambos integrantes da Estrela D’Oriente, fundou o Grupo Teatral Negro de Barretos (GTNB). O novo grupo tinha como objetivo preparar homens e mulheres negros para a atuação teatral, ampliando sua participação na vida cultural da cidade e criando oportunidades que até então eram bastante restritas.
A iniciativa colocava Barretos em sintonia com discussões que ganhavam força em âmbito nacional. Na década de 1960, a presença de artistas negros no teatro e na televisão ainda era extremamente limitada. Quando apareciam em cena, frequentemente eram associados a personagens estereotipados e socialmente marginalizados. Empregadas domésticas, moradores de favela, jagunços, criminosos ou figuras subalternas constituíam grande parte das representações atribuídas à população negra nos meios artísticos.
Esse debate ganhou ainda mais visibilidade em 1969, quando a TV Globo exibiu a novela A Cabana do Pai Tomás, adaptação do romance de Harriet Beecher Stowe. Apesar de o protagonista ser um personagem negro, o papel foi interpretado pelo ator branco Sérgio Cardoso. A decisão provocou forte reação de intelectuais e artistas, entre eles o dramaturgo Plínio Marcos, que utilizou sua coluna Navalha na Carne, publicada no jornal Última Hora, para manifestar publicamente seu descontentamento.

Em Barretos, a resposta de Expedito a esse contexto foi concreta. Seu objetivo era criar condições para que atores negros ocupassem efetivamente o palco. A primeira realização do Grupo Teatral Negro de Barretos foi a montagem de Esqueleto Zero Hora, texto escrito pelo próprio dramaturgo. O espetáculo foi apresentado nos fundos da Associação Rural do Vale do Rio Grande, na Praça Francisco Barreto, marcando oficialmente a estreia do grupo.

Atualmente, o panfleto dessa apresentação encontra-se preservado no acervo do Museu Histórico, Artístico e Folclórico “Ruy Menezes”, constituindo importante documento para a memória cultural barretense.
Em 1967, numa demonstração do espírito colaborativo que caracterizava o movimento teatral local, José Expedito promoveu a união entre o Grupo Teatral Negro de Barretos e o Teatro Experimental de Barretos para a montagem de Quarto de Empregada, texto do dramaturgo Roberto Freire. O espetáculo reuniu integrantes dos dois grupos e teve Maria de Lourdes Silva, membro do GTNB, no papel principal.
A peça foi apresentada na então Faculdade de Tecnologia de Barretos e contou com a presença de dois nomes consagrados do teatro brasileiro, Cacilda Becker e Walmor Chagas, fato que evidencia a projeção alcançada pelo trabalho desenvolvido na cidade.
Posteriormente, a montagem foi levada ao Grêmio Literário e Recreativo de Barretos. A recepção, entretanto, não foi unanimemente positiva. Parte do público demonstrou desconforto diante das questões sociais abordadas pela peça, especialmente aquelas relacionadas às condições de vida das empregadas domésticas. Como o clube era frequentado majoritariamente pela elite local, a crítica social presente no texto atingia diretamente valores e sensibilidades daquela parcela da sociedade.
O tempo, contudo, acabaria reconhecendo a qualidade artística da encenação. Em 1970, Quarto de Empregada conquistou o prêmio de Melhor Espetáculo no 1º Festival de Teatro Amador do Vale do Rio Grande, consagrando uma obra que nascera da coragem de discutir temas incômodos, porém profundamente relevantes.
A peça voltaria aos palcos em diferentes momentos. Em uma de suas remontagens, a atriz Eunice Espíndola assumiu o papel de Rosa, a empregada doméstica protagonista da narrativa.

Vista em perspectiva histórica, a experiência do Grupo Teatral Negro de Barretos e sua aproximação com o Teatro Experimental de Barretos revela tanto os avanços quanto as contradições de seu tempo. É inegável que José Expedito Marques contribuiu para ampliar a participação de atores negros em um ambiente cultural onde essa presença frequentemente era negligenciada. Sua iniciativa representou um importante gesto de inclusão e reconhecimento.
Ao mesmo tempo, muitas das personagens disponíveis para intérpretes negros continuavam vinculadas a representações estereotipadas que associavam a população negra à pobreza, à subalternidade e à marginalização social. Essa realidade não era exclusiva de Barretos, mas refletia um padrão amplamente difundido no teatro, no cinema e na televisão brasileira das décadas de 1960 e 1970.
Analisar essas produções exige, portanto, compreender o contexto histórico em que foram concebidas. As peças encenadas por José Expedito Marques revelam não apenas suas convicções pessoais, mas também as influências culturais, sociais e ideológicas de sua época. Ainda assim, ao fundar o Grupo Teatral Negro de Barretos, o dramaturgo deu um passo significativo para ampliar a participação negra nos palcos locais, deixando um legado que permanece como parte importante da história do teatro e da cultura barretense.
Imagens do folder do GTNB pertencem ao acervo do Museu Histórico, Artístico e Folclórico “Ruy Menezes”.
Referências:
ARMANI, Karla; FERNANDES, Sueli; TINELI, Roseli; TRUCULO, Priscila. Descobrindo Barretos: 1854 – 2012. LIVERPOOL, Barretos, 2012.
MENEZES, Ruy. Espiral: História do Desenvolvimento Cultural de Barretos, INTEC, Barretos, 1985.


