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As primeiras cortinas, as primeiras imagens

 As primeiras cortinas, as primeiras imagens
  • Por Sueli Fernandes

Quando se fala na história de Barretos, é natural que venham à mente a pecuária e as tradições sertanejas que ajudaram a projetar a cidade para além das fronteiras regionais. Mas existe outra história, menos conhecida e igualmente fascinante: a de uma comunidade que, desde seus primeiros anos, demonstrou enorme interesse pelas artes, pelo entretenimento e pelas novidades culturais que chegavam do mundo moderno.

No alvorecer do século XX, quando Barretos ainda consolidava sua vida urbana, seus moradores já buscavam formas de ampliar os horizontes culturais da cidade. Bailes, saraus, leituras públicas e apresentações artísticas começavam a ocupar espaço no cotidiano local. Foi nesse ambiente que surgiu a Sociedade Instrução e Recreio, uma entidade dedicada à promoção da educação, do convívio social e das atividades culturais.

Os registros mais antigos dessa movimentação encontram-se nas páginas de O Sertanejo, primeiro jornal da cidade e uma fonte preciosa para compreender o modo de vida dos primeiros barretenses. Foi por meio de suas páginas que ficou registrada uma apresentação teatral realizada em 14 de abril de 1900, considerada uma das primeiras encenações organizadas de que se tem notícia em Barretos.

A cidade ainda era pequena, mas a disposição para fazer arte era grande. Os espetáculos não dependiam de companhias vindas da capital ou de artistas famosos. Eram produzidos pelos próprios moradores, que se encarregavam de organizar e interpretar as peças. Entre eles estavam comerciantes, profissionais liberais, funcionários públicos e até figuras de destaque na vida política local.

Um dos personagens mais interessantes dessa história foi o coronel Raphael Brandão, primeiro intendente do município. Costumamos imaginar os coronéis da Primeira República como homens sisudos, preocupados exclusivamente com política, negócios e disputas de poder. No entanto, os registros mostram uma realidade mais rica e humana. Brandão participou ativamente da vida teatral da cidade. Na peça O Modelo Vivo, encenada em abril de 1900, interpretou um velho banqueiro chamado senhor Vannoy. Seu desempenho foi tão elogiado que os jornais destacaram os aplausos arrancados do público sempre que pronunciava o bordão: “Oh! As mulheres! As mulheres!”.

Veridiana e Raphael Brandão. Além de líder político, Raphael Brandão participou das primeiras experiências teatrais registradas na cidade. Acervo da família Brandão.

O outro personagem igualmente curioso é o coronel Dr. Antônio Olympio Rodrigues Vieira, figura presente em diversos episódios políticos marcados por capanganismo e violência eleitoral. Contudo, para além da imagem tradicional do chefe político autoritário e influente, emerge um aspecto surpreendente de sua trajetória: sua participação como ator na peça Modelo Vivo. A presença de um coronel identificado com as disputas e tensões da vida pública nos palcos causa estranhamento e desperta interesse, justamente por romper com as expectativas associadas à sua figura histórica. Acostumado a exercer protagonismo nos embates políticos da região, Antônio Olympio aparece, nesse contexto, desempenhando um papel artístico, transitando por um espaço geralmente vinculado ao entretenimento, à sociabilidade e à expressão cultural. Essa faceta inusitada contribui para complexificar sua biografia, revelando que personagens conhecidos por sua atuação enérgica e controversa na esfera política também podiam ocupar lugares inesperados no cenário cultural da época. A participação em Modelo Vivo torna-se, assim, um elemento emblemático e até mesmo surpreendente de sua trajetória, evidenciando a multiplicidade de experiências que compunham a vida das elites locais no início do século XX.

A cena nos obriga a rever certas imagens cristalizadas sobre o passado. Aqueles homens que ajudaram a construir politicamente a cidade também frequentavam sociedades recreativas, subiam aos palcos e participavam de iniciativas culturais. A Barretos dos primeiros tempos não era feita apenas de fazendas, eleições e negócios. Havia também espaço para o riso, para a convivência e para a arte.

Outro personagem importante foi Álvaro Menezes, vindo de Bebedouro para assumir a direção artística da Sociedade Instrução e Recreio. Sob sua orientação, a entidade fortaleceu suas atividades e apresentou O Modelo Vivo a um público ansioso por novas formas de entretenimento. Mais do que uma simples atração da época, aquele espetáculo inaugurava uma tradição cultural que atravessaria gerações.

Mas, se o teatro já causava entusiasmo, a novidade que chegaria no ano seguinte provocaria verdadeiro assombro.

Em outubro de 1901, O Sertanejo noticiou a primeira sessão de cinema realizada em Barretos. A exibição foi promovida pela empresa Volpe, Nardino & Massimo, que percorria cidades do interior levando um equipamento ainda desconhecido da maioria da população: o cinematógrafo.

Diferentemente dos projetores modernos, o cinematógrafo era um equipamento mecânico e multifuncional, capaz de filmar, copiar e projetar imagens. Seu funcionamento dependia do acionamento manual de uma manivela, responsável por movimentar a película diante da lente em velocidade relativamente constante. Essa característica era especialmente importante em cidades do interior paulista no início do século XX. Em Barretos, por exemplo, a energia elétrica só seria inaugurada oficialmente em 1910, quase uma década após a primeira sessão cinematográfica registrada na cidade. Assim, as exibições de 1901 não dependiam de uma rede elétrica urbana, mas da operação manual do aparelho e possivelmente de lampiões utilizados para a projeção. A presença do cinematógrafo em Barretos revela, portanto, não apenas o interesse local pelas novidades culturais, mas também a capacidade desses empresários itinerantes de levar uma tecnologia de ponta a localidades que ainda não dispunham da infraestrutura associada à modernidade urbana.

Observa-se, na nota jornalística, de 1901, o emprego da expressão de época “enchente à cunha”, utilizada no final do século XIX e nas primeiras décadas do século XX para indicar que um determinado espaço estava completamente lotado. Nesse contexto, a expressão sugere que as exibições atraíram um público numeroso e obtiveram boa receptividade. Contudo, apesar de evidenciar o sucesso das apresentações, a nota não informa o local onde elas foram realizadas.

O que torna esse registro ainda mais notável é o fato de que o cinema era, então, uma invenção praticamente recém-chegada ao mundo. Apenas seis anos antes, em dezembro de 1895, os irmãos Lumière haviam realizado, em Paris, as primeiras exibições públicas de imagens em movimento, marco que costuma ser considerado o nascimento do cinema. Enquanto grandes centros urbanos da Europa e das Américas ainda descobriam as possibilidades daquela tecnologia revolucionária, companhias itinerantes percorriam estradas e linhas férreas levando o cinematógrafo a localidades distantes dos circuitos culturais tradicionais. Assim, cidades do interior como Barretos tiveram contato com a nova arte em um momento em que ela própria ainda estava sendo inventada, antes mesmo de uma indústria cinematográfica consolidada.

Cartaz da primeira sessão pública de cinematografia, realizada em Paris em 28 de dezembro de 1895. A exibição contou com a presença de 33 espectadores. Fonte: https://holofotevirtual.blogspot.com/2010/11/filme-dos-irmaos-lumiere-no-1.html

Naquele tempo, o cinema era muito diferente do que conhecemos hoje. Não havia longas-metragens, efeitos especiais ou estrelas de Hollywood. As projeções eram compostas por pequenas cenas documentais chamadas de “vistas” ou “atualidades”, consideradas precursoras dos telejornais modernos. Mostravam acontecimentos reais: grandes obras, multidões, paisagens exóticas, saídas do trabalho e, principalmente, eventos extraordinários capazes de causar impacto visual.

Projetor de Filmes do século XX. Equipamentos semelhantes a este apresentaram o cinema aos barretenses, inaugurando a história do cinema na cidade. Acervo do Museu Ruy Menezes.

Hoje, acostumados a assistir vídeos pelo celular a qualquer momento, talvez seja difícil compreender o impacto daquele instante. Mas imagine a situação: homens, mulheres e crianças que nunca haviam visto uma imagem se mover diante de seus olhos observavam, pela primeira vez, cenas reais acontecendo sobre uma tela.

Aquilo era mais do que entretenimento. Era uma nova forma de experimentar a realidade.

Pela primeira vez, acontecimentos ocorridos a centenas de quilômetros podiam ser vistos com os próprios olhos, criando uma sensação inédita de proximidade com lugares distantes. O cinema transformava-se numa janela aberta para o mundo.

Assim, em pouco mais de um ano, Barretos experimentou duas das mais importantes manifestações artísticas da modernidade. Primeiro, o teatro, construído pelo esforço e pela criatividade dos próprios moradores. Depois, o cinema, trazendo para o interior paulista uma invenção que ainda maravilhava plateias em diversos países.

Sem que seus habitantes soubessem, aquelas primeiras experiências lançavam as bases de uma tradição cultural que atravessaria o século. Dos palcos improvisados da Sociedade Instrução e Recreio às futuras salas de cinema da cidade, começava ali uma história de arte, memória e encantamento que continua fazendo parte da identidade barretense até hoje.

Nota: Os recortes de jornais utilizados nesta pesquisa foram extraídos do periódico O Sertanejo e pertencem ao acervo do Museu Histórico, Artístico e Folclórico “Ruy Menezes”, com exceção do cartaz do cinematógrafo, cuja procedência está indicada na própria imagem. A fotografia de Antônio Olympio foi reproduzida da revista Illustração Paulista, integrante do acervo da Biblioteca Nacional.

Redação

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