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Ana Castela, “Rap da Felicidade” e o debate sobre quando a cultura periférica vira produto

 Ana Castela, “Rap da Felicidade” e o debate sobre quando a cultura periférica vira produto

Em meio às polêmicas envolvendo Ana Castela, desde a foto ao lado de Nikolas Ferreira na Festa do Peão de Barretos até as discussões sobre dinheiro público em eventos, a cantora lançou “Não é Pressa, é Pressão”, parceria com Rincon e DJ BOSS. A música utiliza a melodia e a estrutura de “Rap da Felicidade”, clássico de Cidinho e Doca, mas troca a realidade das periferias retratada na original por caminhonetes, vaquejada, Barretos e ostentação.

E os questionamentos sobre dinheiro público também ajudam a entender o tamanho desse mercado. Em Santa Bárbara do Tugúrio, cidade mineira com pouco mais de 4 mil habitantes, a Justiça suspendeu os contratos da 40ª Festa da Banana que somavam R$ 1,816 milhão somente em atrações artísticas. Desse valor, R$ 900 mil eram destinados ao show de Ana Castela. A quantia superava a previsão de arrecadação própria do município para todo o ano de 2026, estimada em R$ 930,4 mil.

O problema de “Não é Pressa, é Pressão” não está simplesmente em fazer uma nova versão de uma música conhecida. “Rap da Felicidade” nasceu de uma realidade social específica e se tornou um símbolo da cultura periférica. Na nova música, a mesma estrutura aparece ligada a um universo completamente diferente, esvaziando justamente a parte da obra que dava sentido àquela música.

Isso me faz pensar em um movimento que se repete muitas vezes na história da música: manifestações criadas por pessoas negras, periféricas e outros grupos marginalizados são tratadas como cultura menor, até que passam a gerar dinheiro, prestígio e público. A partir daí, são incorporadas pelo mercado, muitas vezes sem o mesmo reconhecimento dado às pessoas e comunidades que criaram aquela cultura. O rock, o jazz e vários outros gêneros passaram por processos parecidos.

A própria música credita a interpolação de “Rap da Felicidade”, então não se trata simplesmente de dizer que Ana Castela “roubou” a canção. Mas dar crédito não apaga o problema cultural. É possível respeitar os direitos autorais de uma obra e, ao mesmo tempo, retirar dela justamente o significado que a tornou importante.

No fim, acho que o problema é maior do que Ana Castela. “Não é Pressa, é Pressão” mostra como uma cultura pode ser retirada do seu contexto, ganhar uma nova embalagem e ser vendida para um público que talvez nunca tenha se interessado pela realidade de onde aquela música veio. E, sinceramente, não acho isso legal. Quando uma música criada para falar da periferia é transformada em trilha para ostentação e consumo, não estamos apenas fazendo uma brincadeira com uma canção conhecida. Estamos escolhendo o que da cultura periférica merece ser valorizado e o que pode ser apagado para virar produto.

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