Seu Totó: Uma Vida Dedicada à Fé, à Música e às Tradições de Barretos
Seu Totó: Uma Vida Dedicada à Fé, à Música e às Tradições de Barretos
- Por Sueli Fernandes
No último domingo, enquanto participava da tradicional Queima do Alho, em Barretos, fui tomada por uma sensação de saudade. Em meio aos sons da viola, às conversas entre amigos e às manifestações que tão bem representam a alma da cultura sertaneja, senti a ausência de uma figura que por muitos anos foi presença marcante nesses espaços: Seu Totó. Foi impossível não recordar a grandeza de sua trajetória e compreender, mais uma vez, a dimensão da perda sofrida por nossa comunidade com a sua partida.

Seu Totó partiu em 22 de janeiro de 2025. Odair de Paula Macedo, carinhosamente conhecido como Seu Totó, dedicou mais de oito décadas de sua vida à preservação das tradições que ajudaram a construir a identidade cultural do município. Violeiro, compositor, catireiro, embaixador da Companhia de Reis da Fazenda da Cachoeirinha e mestre de diversos saberes populares, Seu Totó transformou sua própria trajetória em um elo entre gerações, garantindo que a música, a fé e os costumes herdados dos antigos continuassem vivos no coração do povo barretense.
Nascido em 27 de setembro de 1938, na Fazenda Cachoeirinha, em Barretos, Seu Totó cresceu em um ambiente onde música, fé e tradição caminhavam juntas. Desde a infância demonstrava interesse pelas artes, especialmente pela moda de viola, ao mesmo tempo em que observava com admiração a atuação de seu pai, José Ferreira de Macedo, na Companhia de Reis da Fazenda da Cachoeirinha. Foi nesse universo de devoção aos Santos Reis, encontros comunitários e manifestações culturais que se formaram os valores que orientariam toda a sua vida.

Aos sete anos de idade ingressou na Companhia de Reis, iniciando uma caminhada que se prolongaria por mais de setenta anos. Na mesma época, começou a tocar viola ao lado do irmão, formando a dupla Totó e Totózinho. Ainda jovens, os irmãos participaram de rodeios e eventos por toda a região, conquistando reconhecimento por onde passavam. O sucesso, entretanto, veio acompanhado de decepções causadas por pessoas que prometeram apoio e divulgação sem jamais cumprir a palavra empenhada. Daquela experiência restou apenas a lembrança de um LP gravado, cuja realização custou caro demais: a dissolução da dupla.
Se a carreira em dupla teve um fim, sua missão como guardião das tradições populares apenas se fortaleceu. Ao longo das décadas, Seu Totó aprofundou sua dedicação à Companhia de Reis da Fazenda da Cachoeirinha, tornando-se seu Embaixador. Cabia a ele transmitir os conhecimentos herdados dos antigos, preservar os fundamentos da manifestação, criar toadas, orientar os mais jovens e fortalecer os laços que mantinham viva uma tradição centenária.

Reconhecido pelo talento para o improviso e pelo profundo conhecimento da Companhia de Reis, tornou-se uma referência para todos que buscavam compreender a riqueza dessa expressão cultural e religiosa. Filho de um dos pioneiros da Companhia, jamais deixou de participar dos tradicionais giros. Costumava afirmar que os Santos Reis eram responsáveis por sua saúde, disposição e longevidade. Sua liderança contribuiu para que a Companhia da Fazenda da Cachoeirinha atravessasse gerações sem perder sua essência.
A devoção, para Seu Totó, sempre esteve associada ao compromisso com a comunidade. Durante décadas, a Companhia realizou a arrecadação de alimentos e mantimentos destinados à Vila dos Pobres, mantendo uma tradição solidária que se tornou parte fundamental da sua história. Ano após ano, enfrentando sol, poeira e cansaço, os integrantes percorriam caminhos em nome da fé e da caridade, transformando a devoção em auxílio concreto aos mais necessitados.

Sua contribuição para a cultura barretense não se limitou à Companhia de Reis. Em 25 de agosto de 1964 participou da fundação da Catira 25 de Agosto, grupo que homenageava, em seu próprio nome, a data oficial de fundação da cidade de Barretos, ocorrida em 25 de agosto de 1854. A trajetória do grupo tornou-se inseparável da Festa do Peão de Boiadeiro de Barretos e da história da Associação Os Independentes. Ao centro da imagem, os irmãos Totó e Totózinho aparecem ao lado dos demais integrantes da Catira 25 de Agosto.
Durante décadas, a Catira 25 de Agosto integrou o conjunto das principais atrações da Festa do Peão, levando ao público a força da cultura caipira, da viola e da tradicional batida dos pés. Com o grupo, Seu Totó representou Barretos em diversas cidades brasileiras, participando de festivais, encontros culturais e programas de televisão. Assim, ajudou a difundir manifestações que constituem a identidade cultural do município.
A história da Catira 25 de Agosto sofreu um duro golpe em 1996, com o assassinato do violeiro Claudio Fernando Francisco. A perda abalou profundamente o grupo, que passou a se apresentar apenas esporadicamente. Ainda assim, a paixão de Seu Totó pela música e pela tradição falou mais alto. Incapaz de abandonar os palcos, fundou posteriormente a Catira Espora Prata, reafirmando seu compromisso com a preservação da cultura popular.
Sua atuação alcançou projeção nacional por meio de participações em diversos programas de televisão dedicados às tradições brasileiras. Esteve por várias vezes ao lado de Inezita Barroso, na TV Cultura, levando para todo o país um pouco da identidade cultural de Barretos. Em cada apresentação, compartilhava manifestações que aprendera ainda criança e que dedicou a vida a preservar.
Compositor talentoso, também conquistou o respeito de importantes nomes da cultura popular. Manoel Messias, colaborador de diversas edições dos eventos musicais promovidos por Os Independentes, declarou durante entrevista para o documentário dedicado a Seu Totó que ele era “um dos melhores compositores que já conheci”. O reconhecimento vindo de alguém com experiência no universo da música tradicional demonstra a dimensão de sua contribuição artística.
Seu Totó participou ainda da Dança de São Gonçalo, do Canto das Almas durante a Quaresma, da Dança de Lundu e da Dança da Chula. Também colaborou com os primeiros anos do Festival do Folclore de Olímpia, onde esteve ao lado do professor Santana e de Dona Cidinha Manzoli ensinando a tradicional dança do Pau de Fitas. Em todas essas experiências, atuou como transmissor de conhecimentos, consciente de que a preservação cultural depende do compartilhamento dos saberes entre gerações.
Na vida familiar, foi casado com Helena Scapolan, uma mulher incrível, com quem teve dois filhos, Carlos Rogério de Macedo e Érica de Macedo. Ao lado da família, construiu uma existência marcada pelo trabalho, pela fé e pela dedicação às manifestações culturais que tanto valorizava.
Em 2024, tive a alegria de integrar a equipe que produziu o videodocumentário Totó: Patrimônio Cultural de Barretos, realizado com recursos da Lei Complementar nº 195/2022, a Lei Federal Paulo Gustavo, por meio da Prefeitura da Estância Turística de Barretos. A obra buscou registrar sua trajetória, seus conhecimentos e a dimensão de sua contribuição para a cultura local.

A estreia foi um momento especial e emocionante. Durante a apresentação da Companhia de Reis da Fazenda da Cachoeirinha, Seu Totó foi tomado pelas lembranças de sua longa caminhada. Recordando composições e toadas de sua autoria, levantou-se e subiu espontaneamente ao palco para cantá-las. Sua voz trouxe à tona memórias de toda uma vida dedicada à arte, à fé e à cultura popular. O gesto emocionou profundamente todos os presentes, que testemunharam não apenas uma apresentação musical, mas um encontro entre o homem, sua história e seu legado. Feliz e sorridente, Seu Totó viveu naquela noite uma homenagem merecida e repleta de afeto.

Ver aquela homenagem concretizada trouxe-me a sensação de dever cumprido, pois acredito que os reconhecimentos mais significativos devem acontecer em vida, permitindo que seus homenageados recebam o carinho, o respeito e a gratidão daqueles que foram tocados por sua história e por seu legado.
Poucos meses depois, em 22 de janeiro de 2025, Barretos despediu-se de um de seus maiores representantes culturais. Sua partida deixou saudade entre familiares, amigos, companheiros de jornada e admiradores. Entretanto, seu legado permanece vivo nas toadas da Companhia de Reis da Fazenda da Cachoeirinha, nos versos que compôs, na batida da catira, nas danças tradicionais que ajudou a preservar e na memória daqueles que tiveram o privilégio de conviver com ele.
Hoje, ao recordar sua trajetória, compreendemos que Seu Totó não deixou apenas lembranças. Deixou caminhos. Caminhos percorridos pela bandeira dos Reis Magos, pelos catireiros que mantêm viva a tradição, pelos violeiros que encontram inspiração em suas composições e pelos jovens que continuam aprendendo os costumes que ele dedicou a vida inteira a preservar.
Seu Totó foi um mestre da cultura popular. Um homem que dedicou sua vida à preservação das tradições e ao fortalecimento da identidade cultural de sua comunidade. Sua história tornou-se parte inseparável da história de Barretos. Por isso, seu nome permanece como um verdadeiro patrimônio cultural da cidade, inspirando novas gerações a compreender, valorizar e dar continuidade às tradições que ele tão generosamente ajudou a preservar.
As imagens que acompanham esta homenagem são do acervo familiar de Seu Totó, gentilmente preservadas por sua família.


