Violência política de gênero: do que estamos falando?
- Maria Elisa Aquino é revisora textual.
Em 2026, o Brasil terá eleições nacionais em outubro. Logo no período da pré-campanha, vemos mulheres se colocando como pré-candidatas. São mulheres diversas, buscando a reeleição ou não. Contudo, mesmo com um avanço da representatividade feminina, as mulheres enfrentam barreiras para entrar na política institucional, sendo uma delas a violência política de gênero. Mas o que é isso? Por que esse debate é tão necessário?
Segundo as sociólogas Jessica Melo Rivetti e Marlise Matos (2025), esse tipo de violência trata-se de “uma ferramenta de manutenção da dominação masculina nos campos do poder, operando por meio da humilhação pública, do silenciamento e da negação da competência política das mulheres”, sendo direcionada, principalmente, àquelas que desafiam as hierarquias tradicionais de poder.
Assim, essa forma de violência pode chegar de maneira sutil, velada, ou até de modo intimidador. Desde desqualificar uma mulher, seja pela idade, seja interrompendo sua fala, seja por achar que ela não tem competência para estar ali. Há ainda manifestações como usar sua candidatura como fictícia ou laranja, impedir ou dificultar acesso aos recursos para a campanha eleitoral, disseminar fake news ou informações falsas sobre a mulher e até ameaças de violência física, sexual e/ou morte.
Na ocasião do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, essa forma de violência ficou escancarada, dada a forma que ocorreu o processo. Dois anos depois, a morte de Marielle Franco, em 2018, revelou até onde o patriarcado chega para equilibrar que a política institucional seja um espaço de privilégio masculino, cisheteronormativo e branco.
No Brasil, somente em 2021, foi sancionada a Lei nº 14.192, que estabelece normas para prevenir, reprimir e combater a violência política contra a mulher, ou seja, 27 anos depois da Convenção de Belém do Pará (1994), conhecida como Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher. Ainda que com avanços institucionais nesse tempo, temos um longo caminho a percorrer.
Podemos destacar que parlamentares, militantes e lideranças políticas são constantemente ameaçadas e coagidas, desde insultos nas redes sociais e até por cassação. Áurea Carolina (PSOL/MG), Benedita da Silva (PT/RJ), Juliana Cardoso (PT/SP), Manuela D’Ávila (PSOL/RS), Maria do Rosário (PT/RS) e Sâmia Bomfim (PSOL/SP) são parlamentares que sofreram violência política de gênero e que podemos mencionar dentre inúmeros casos que ocorrem todos os dias.
Tentativas de deslegitimar e restringir como essas mulheres atuam, falam e se posicionam são frequentes, seja nos espaços públicos, de poder ou nas mídias sociais. Mesmo com esses ataques, a resistência das mulheres feministas como coletivo para romper com a velha política institucional e a estrutura patriarcal ocupando espaços públicos cresce a cada dia. Por isso, eleger, para a Câmara e para o Senado, mulheres feministas que questionam essa ordem é uma tarefa para 2026.
Parafraseando Marielle Franco: não seremos interrompidas!



