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Entre o samba e os pneus murchos: as curiosidades do Carnaval de 1973 em Barretos

 Entre o samba e os pneus murchos: as curiosidades do Carnaval de 1973 em Barretos
  • Por Sueli Fernandes

O Carnaval de 1973 entrou para a história de Barretos como uma festa de alegria contagiante, arquibancadas cheias e muito orgulho para os moradores. Nas páginas de O Diário de Barretos, a expectativa era grande. O jornal anunciava em clima de celebração: “Muita música, muita alegria, vai começar o Carnaval Barretense 1973”. E a promessa foi cumprida. A Comissão de Carnaval, presidida por Agostinho Pereira, vice-prefeito, recebeu elogios de populares, da imprensa e das autoridades, consolidando o sucesso da organização da festa.

Nas ruas, o grande destaque foi a consagração da Estrela do Oriente, então presidida por José Pereira das Neves. Com o samba-enredo “Exaltação à Bahia”, a escola conquistou o bicampeonato carnavalesco e reafirmou seu papel como uma das mais importantes instituições culturais da cidade. Herdeira da tradição do bloco Carvão Nacional e considerada a mais antiga agremiação barretense, a Estrela carregava não apenas fantasias e estandartes, mas décadas de história e pertencimento.

Bateria da Escola Campeã em 1973. O Diário de Barretos. Mar.1973. Acervo: Museu “Ruy Menezes”.

Mas o Carnaval de 1973 não se restringiu aos desfiles. Os clubes da cidade viveram dias de intensa movimentação. Havia bailes no Grêmio, na União, no Jockey Clube, no Frigorífico e, pela primeira vez, no Centro do Professorado Paulista (CPP). Eram espaços de encontro, dança e convivência social, reunindo diferentes gerações e estilos em noites embaladas por marchinhas, sambas e muita animação.

Um aspecto digno de registro foi a ausência de ocorrências graves. Todos os eventos transcorreram sem notícias de brigas ou confusões. Enquanto os foliões lotavam os salões, Barretos oferecia um exemplo de convivência pacífica durante os festejos.

Entretanto, foi justamente fora dos clubes que surgiu o episódio mais inusitado, e o mais polêmico, daquela edição do Carnaval.

Na madrugada da Quarta-Feira de Cinzas, por volta das 5h30, a polícia adotou uma medida considerada violenta para disciplinar o trânsito nas proximidades dos locais de baile: agentes passaram a esvaziar os pneus dos veículos estacionados irregularmente. A ação provocou indignação imediata entre proprietários de automóveis e autoridades locais.

O vereador Sebastião Miziara criticou duramente a medida, defendendo que a orientação e a prevenção deveriam prevalecer sobre ações meramente punitivas. A repercussão foi tão intensa que o então presidente da Câmara Municipal, Melek Zaiden Geraige, ocupou a tribuna para condenar a atitude. Segundo ele, “para manter a ordem não é necessário sadismo”. Destacou ainda que nem mesmo em grandes capitais como São Paulo e Rio de Janeiro práticas semelhantes haviam sido aprovadas.

A referência remetia a São Paulo, em 1967, quando o coronel Francisco Américo Fontenelle, diretor do Departamento Estadual de Trânsito (DET), tornou célebre a prática de esvaziar pneus de veículos estacionados irregularmente. Fontenelle, que anteriormente já havia dirigido o trânsito do Rio de Janeiro, acumulava forte rejeição popular e política. Em algumas ocasiões, acompanhado do próprio filho, praticava pessoalmente as ações. Chegou inclusive a declarar: “Sei esvaziar pneus e sou violento.” A frase transformou-se em manchete e contribuiu para apressar sua saída do cargo.

O curioso é que o jornal O Diário de Barretos preferiu não mencionar diretamente o esvaziamento de pneus. Em sua cobertura, registrou apenas: “A festa foi muito bem-sucedida. A polícia realizou trabalho preventivo e, salvo acontecimentos que chegaram a ser desagradáveis, não houve maiores anormalidades na festa deste ano, onde a família barretense brincou dentro do maior respeito”. Uma forma elegante de reconhecer a polêmica sem enfrentar abertamente a ação policial.

Vista à distância de mais de cinco décadas, a cena parece quase cinematográfica: após uma noite inteira de samba, dança e celebração, dezenas de foliões encontraram seus automóveis imobilizados, com os pneus murchos, encerrando a festa de forma tão inesperada quanto controversa. Registrado nas páginas das atas do legislativo da época, o episódio revela uma faceta pouco conhecida do Carnaval barretense de 1973 e ajuda a compreender como polícia e autoridades encaravam a manutenção da ordem pública durante os festejos.

Apesar da controvérsia, o balanço geral da festa foi extremamente positivo. A cidade recebeu visitantes de diversas localidades da região, movimentou clubes, hotéis e o comércio, e despertou um debate que hoje parece visionário: a necessidade de criação de um Departamento de Turismo capaz de divulgar Barretos e oferecer melhor atendimento aos visitantes.

Entre o brilho do bicampeonato da Estrela do Oriente e a surpresa dos pneus esvaziados ao amanhecer, o Carnaval de 1973 permanece como um retrato de seu tempo. Um período em que a alegria popular ocupava as ruas com força, enquanto o poder público, em plena época da Ditadura Militar, buscava impor disciplina até mesmo nos momentos de celebração. O resultado foi um capítulo singular da história de Barretos — marcado pelo sucesso da festa, pelo entusiasmo dos foliões e por uma medida policial que, roubou parte da conversa nos dias seguintes e, revisitada hoje, chama atenção pela severidade e pela forma como expressava os valores e práticas daquele período histórico.

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