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Tradições de Barretos — Ecos de um pioneiro

 Tradições de Barretos — Ecos de um pioneiro
  • Por Sueli Fernandes

Muito antes de a história de Barretos ser organizada em arquivos, livros e pesquisas sistemáticas, ela foi guardada na memória dos que aqui chegaram, trabalharam e ajudaram a construir os primeiros contornos da cidade. Entre esses homens, destaca-se Jesuíno da Silva Melo, nome que, ainda hoje, ecoa como um dos primeiros a compreender a importância de registrar aquilo que o progresso tende a apagar.

Nascido em 15 de janeiro de 1851, em Paraisópolis, Minas Gerais, Jesuíno era, por formação, agrimensor. Mas sua verdadeira vocação ultrapassava os limites da técnica: era homem de letras, observador da realidade e, sobretudo, cronista de seu tempo. Por onde passou, como em Rio Claro, onde atuou junto às companhias ferroviárias e no campo da educação, deixou marcas de sua inquietação intelectual e comprometimento com o saber.

Foi, porém, em Barretos que sua pena encontrou um propósito mais duradouro. Em meio a uma cidade ainda em formação, Jesuíno dedicou-se a ouvir e registrar as histórias dos primeiros moradores, publicando-as na coluna “Tradições de Barretos”, no jornal O Sertanejo, o primeiro da cidade, fundado em 31 de março de 1900. Ali, transformou relatos orais em memória escrita, dando à cidade algo raro para sua época: consciência de si mesma. Não se limitava a narrativas históricas — escrevia também sobre pecuária, indústria e recursos naturais, temas que dominava com propriedade.

Jesuíno da Silva Melo. Fonte: Álbum Comemorativo do 1º. Centenário de Barretos.

Sua trajetória o levaria ainda mais longe. Em 1901, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde passou a atuar como professor no Instituto Benjamin Constant, instituição fundada por Dom Pedro II em 17 de setembro de 1854 sob o nome de Instituto dos Meninos Cegos do Brasil e já consolidada, à época, como referência nacional no atendimento às pessoas com deficiência visual. Inserido nesse ambiente, Jesuíno não apenas exerceu o magistério, como também aprofundou seus estudos nessa área, chegando, inclusive, a representar o Brasil em um congresso internacional dedicado à educação de pessoas cegas.

Seu vínculo com o Instituto Benjamin Constant tornaria-se central em sua vida. Em 1902, assumiu a direção da instituição, cargo que ocuparia por 16 anos, em dois períodos distintos, feito notável, já que apenas duas pessoas na história do Instituto ocuparam a direção em dois mandatos.  Sua gestão foi marcada por melhorias concretas, como a modernização da infraestrutura, a aquisição de materiais pedagógicos adaptados e instrumentos musicais para alunos cegos, além da preocupação constante com o acesso ao conhecimento.

Dessa inquietação nasceu, em 1905, a Biblioteca Louis Braille, criada por ele diante da escassez de livros acessíveis. O acervo inicial, composto por cerca de 300 obras, incluía preciosidades como textos provenientes da coleção de José Álvares de Azevedo. A criação da biblioteca não foi um gesto isolado, mas parte de uma visão mais ampla de democratização do conhecimento: ainda em sua gestão, atento às dificuldades enfrentadas pelos alunos, Jesuíno solicitou ao Ministro da Educação a criação de um cargo de leitor de livros e jornais para cegos, ampliando, assim, as possibilidades de acesso à informação dentro da instituição.

A biblioteca tornou-se um marco dentro do Instituto, reforçando seu papel como centro de referência nacional na educação de pessoas com deficiência visual, posição que o Instituto Benjamin Constant mantém até os dias atuais, vinculado ao Ministério da Educação.

A vida de Jesuíno também conheceu desafios e controvérsias, incluindo sua destituição da direção em 1920, posteriormente contestada na Justiça, onde obteve decisão favorável por falta de provas das acusações. Ainda assim, sua trajetória foi reconhecida em vida: em 1925, já próximo dos 80 anos, foi homenageado com seu retrato na galeria de ex-diretores do Instituto.

Mas, para nós, em Barretos, seu retrato mais fiel não está apenas em molduras ou documentos oficiais, está nas palavras que permaneceram. Jesuíno da Silva Mello foi, antes de tudo, um guardião das memórias de uma cidade nascente.

Hoje, ao retomar o título “Tradições de Barretos”, esta coluna se coloca como continuidade viva daquele trabalho pioneiro. Se, no passado, Jesuíno recolhia histórias à luz das conversas e da memória dos primeiros moradores, no presente essa missão se amplia por meio da pesquisa em arquivos, jornais antigos e documentos históricos, onde fragmentos do passado aguardam para serem reunidos e reinterpretados.

Assim, entre a oralidade de ontem e as fontes documentais de hoje, constrói-se uma mesma ponte: o compromisso de preservar e difundir a história local. Porque cidades não são feitas apenas de ruas e construções — são feitas de histórias. E enquanto houver quem as investigue, registre e conte, Barretos continuará viva na memória de seu povo.

Referências: Instituto Benjamin Constant

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