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A revolução que ainda assusta o mundo

 A revolução que ainda assusta o mundo
  • Michela Rita é historiadora, gestora pública e professora, com MBA em Gestão Escolar.

Às vésperas do início da Copa do Mundo, uma decisão da FIFA gerou indignação no Haiti. A entidade exigiu alterações no uniforme da seleção haitiana sob a alegação de “desconformidade visual”. O problema é que o material já havia sido aprovado meses antes. Mais do que uma questão burocrática, o episódio reacendeu um debate importante: quem tem o direito de decidir quais histórias podem ser contadas?

A camisa haitiana trazia referências à Batalha de Vertières, travada em 1803. Para muitos brasileiros, trata-se de um acontecimento pouco conhecido. Para os haitianos, porém, representa um dos capítulos mais importantes da história mundial. Foi o confronto decisivo da revolução que derrotou as tropas de Napoleão Bonaparte e abriu caminho para a independência do Haiti, proclamada em 1804.

O significado desse episódio ultrapassa as fronteiras haitianas. A independência do Haiti foi a primeira revolução vitoriosa de pessoas escravizadas na história moderna e resultou na criação da primeira república negra do mundo. Em uma época em que a escravidão sustentava economias inteiras nas Américas, homens e mulheres escravizados demonstraram que a liberdade não seria concedida como favor, mas conquistada por meio da luta.

Como demonstram diversos estudos sobre a escravidão e os processos de emancipação, as elites coloniais temiam que o exemplo haitiano inspirasse levantes semelhantes em outras regiões das Américas. O silêncio em torno dessa experiência não foi um acaso, mas parte de uma disputa pela memória histórica. Durante muito tempo, a Revolução Haitiana ocupou um espaço marginal nos livros didáticos e nas narrativas oficiais, apesar de seu impacto profundo na história mundial.

O contraste com o presente é revelador. O Haiti costuma ocupar as manchetes internacionais por causa da crise humanitária, da violência das gangues e da instabilidade política. Raramente, porém, recebe destaque por sua contribuição histórica à luta pela liberdade. O país que derrotou um império colonial e inaugurou a primeira república negra do mundo é frequentemente retratado apenas por suas tragédias contemporâneas.

Mesmo a atual crise de segurança não pode ser compreendida de forma simplista. O Haiti não possui uma indústria bélica capaz de produzir o arsenal utilizado pelos grupos armados que hoje aterrorizam a população. Relatórios das Nações Unidas apontam que grande parte dessas armas e munições tem origem nos Estados Unidos, entrando ilegalmente no país por rotas marítimas e terrestres. Ainda assim, pouco se discute sobre as responsabilidades internacionais na manutenção desse cenário.

Por isso, a polêmica envolvendo a camisa vai muito além do esporte. Quando um povo escolhe representar em seu uniforme um momento decisivo de sua trajetória, está reivindicando o direito de preservar sua identidade e sua memória coletiva. Não se trata apenas de um desenho estampado em um tecido. Trata-se da lembrança de uma revolução que abalou os alicerces do colonialismo e da escravidão.

A camisa haitiana não homenageava uma derrota, mas uma vitória. Não lembrava uma tragédia, mas uma conquista. Talvez seja justamente esse o incômodo. O mundo parece mais confortável em enxergar o Haiti como símbolo da crise do que como símbolo de uma revolução que mudou a história da humanidade. Mais de duzentos anos depois da Batalha de Vertières, a luta pela liberdade continua estampada no peito de um povo que se recusa a esquecer sua própria história.

Redação

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