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Paulo Bezerra de Menezes, o guardião da palavra

 Paulo Bezerra de Menezes, o guardião da palavra
  • Por Sueli Fernandes

Há homens que não se contentam em viver apenas para si. Eles se tornam parte da cidade, da memória e da cultura, como se cada gesto fosse destinado a permanecer. Paulo Bezerra de Menezes foi um desses homens. Cearense, nasceu em 9 de agosto de 1898 em Baturité, terra marcada pela fé católica, chegou a Barretos em 1922 e logo se integrou à vida local, descrito como inteligente, bondoso e falante.

Foi no jornal A Semana, fundado em 1925 ao lado de Luiz Xavier Teles, que Paulo Bezerra ergueu sua trincheira de ideias. Ali, entre editoriais e notas, projetou Barretos para além de suas fronteiras. Seu jornal não era apenas veículo de notícias: era espaço de cultura, arena de debates, vitrine da fé e instrumento de cidadania. Guardião da memória, Paulo Bezerra tomou para si a responsabilidade de preservar a conferência Hosana, escrita manualmente por Coelho Neto em 1922. Graças à sua sensibilidade, o documento foi encadernado em 1933 por iniciativa de Ruy Menezes, e sobreviveu ao tempo como testemunho da importância que ele atribuía à cultura e à história.

Mas Paulo Bezerra também soube unir cultura e cotidiano. Em 1928, promoveu pelo jornal um concurso de beleza que elegeu Ivone Vassimon como “Miss Barretos”. Ivone brilhou em São Paulo, conquistando o título de “Miss São Paulo” e, em 1929, representou o estado no concurso de Miss Brasil. Era a prova de que Paulo Bezerra não apenas registrava a vida da cidade, mas a projetava nacionalmente. Ao lado, fotografia de Ivone Vassimon publicada na revista Cineart, em 1929.

Sua coragem encontrou consagração em 1944, quando, ao criticar publicamente a falta de civilidade e urbanidade de um delegado local no trato interpessoal com os cidadãos, foi processado com base na Lei de Segurança Nacional — especificamente no artigo 28 do Decreto-Lei nº 4.766. Sob o Estado Novo, em pleno contexto de guerra, tal dispositivo convertia observações de natureza ética e comportamental em supostos “crimes políticos”, revelando como o aparato jurídico era instrumentalizado para constranger a imprensa e silenciar críticas mesmo quando estas não atacavam o regime, mas denunciavam posturas incompatíveis com a função pública. A tipificação era ampla e severa: previa reclusão de um a seis anos para quem “proferisse em público, ou divulgasse por escrito ou por qualquer outro meio, conceito considerado calunioso, injurioso ou desrespeitoso” contra autoridades ou agentes do poder, o que, na prática, confundia deliberadamente crítica civil com ofensa à ordem nacional. A absolvição, ocorrida em novembro do mesmo ano, ultrapassou o âmbito pessoal do jornalista e assumiu contornos emblemáticos para a história da imprensa brasileira. Ao afirmar que “à imprensa não se pode retirar a liberdade de crítica, quando a crítica é construtiva e não envolve injúrias à autoridade criticada”, o ministro Pereira Braga, relator da sentença, estabeleceu uma distinção fundamental entre o ataque pessoal e o exercício legítimo da crítica pública.

Em um cenário marcado pela censura sistemática e pela vigilância sobre a palavra impressa, a decisão representou uma fresta de racionalidade jurídica e de contenção do arbítrio. Não por acaso, suas palavras foram amplamente reproduzidas e celebradas em jornais de diversas regiões do país, sendo o episódio saudado como símbolo expressivo da resistência jornalística. Ao lado, matéria publicada pelo Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, então capital federal, em 25 de novembro de 1944, que deu ampla visibilidade ao episódio. Na mesma linha, a revista A Cigarra, sediada em São Paulo, ao comentar o caso, foi enfática ao afirmar que “o exercício da crítica é o alicerce da sociedade”, sintetizando a compreensão de que a imprensa exerce papel essencial na vigilância ética do poder e na preservação dos valores democráticos.

Assim, Paulo Bezerra tornou-se exemplo vivo de que a palavra pode ser mais forte que a censura, e sua voz ultrapassou as fronteiras de Barretos, inscrevendo-se na história nacional como um marco da liberdade de imprensa.

Ainda na década de 1940, já consolidado como figura de destaque na vida pública de Barretos, Paulo Bezerra, por meio de seu jornal A Semana, uniu forças com Gastão de Castro Leite, então presidente da Associação Comercial de Barretos. Juntos, mobilizaram a atenção de deputados estaduais e federais em torno de uma causa estratégica: a construção de uma ponte ligando o estado de São Paulo ao de Minas Gerais, passando sobre o Rio Grande. Esse movimento contou com o apoio decisivo do deputado federal José Alves da Palma, cuja influência foi fundamental para que o projeto avançasse.

Após anos de articulação política e empenho coletivo, a obra foi concluída e, em 1º de fevereiro de 1954, a ponte foi oficialmente inaugurada. Em reconhecimento ao engenheiro responsável pelo projeto, recebeu o nome de Gumercindo Penteado, tornando-se não apenas uma infraestrutura vital, mas também um marco simbólico da capacidade de mobilização da sociedade barretense.

Anos mais tarde, em 1963, essa mesma vocação para fomentar o desenvolvimento coletivo se manifestou no campo da cultura. Paulo Bezerra esteve presente na inauguração da Biblioteca Municipal, Affonso de E. Taunay, instalada no “Palácio das Águias”, prédio que fora Paço Municipal e hoje abriga o Museu Ruy Menezes, espaço que se tornaria o coração da vida intelectual barretense. Na ocasião, levantou um brinde ao prefeito Christiano Carvalho, exaltando os benefícios que a leitura traria à população barretense. Era mais uma prova de sua crença na cultura como força transformadora. Não por acaso, foi ali que, em 1º de maio de 1983, nasceu a Academia Barretense de Cultura, como quem planta uma semente de permanência em solo fértil. Desde então, são 43 anos dedicados à valorização da cultura local, à preservação da memória e ao estímulo das artes. Sua dedicação à Santa Casa de Misericórdia foi igualmente notável. De 1923 até o fim da década de 1970, esteve presente como mesário e ativista, liderando campanhas e trazendo as irmãs de Caridade da Ordem de São Francisco de Assis para administrar o hospital. A ligação do hospital com o catolicismo se tornou mais expressiva graças a ele, que via na fé não apenas devoção, mas ação concreta em favor da comunidade.

Paulo Bezerra. O Diário, Barretos. 07.05.1980.

E é nesse ponto que encontro nele um traço comum: a preocupação com a preservação. Assim como Paulo Bezerra guardou com zelo o manuscrito de Coelho Neto, eu mesma empreendi uma pesquisa de fôlego até localizar o único livro publicado por Silvestre de Lima, em 1880. Descobri-o em Azeitão, Portugal, nas mãos de um colecionador de obras raras, e consegui trazê-lo de volta ao Brasil. Hoje, repousa comigo como testemunho de que a memória precisa ser resgatada e protegida.

Paulo Bezerra de Menezes é o patrono da cadeira nº 5 da Academia Barretense de Cultura, hoje por mim ocupada. Sua presença nesse espaço é mais do que uma homenagem simbólica: é permanência. Ele segue inspirando aqueles que, como eu, compreendem que preservar também é criar, que resgatar o passado é, igualmente, projetar o futuro. Assim, passado e presente se entrelaçam — o guardião de ontem e a guardiã de hoje unidos pelo mesmo compromisso: manter viva a chama da cultura como caminho de liberdade, memória e identidade.

Amanhã, a Academia completa 43 anos. Mais do que uma instituição, consolidou-se como guardiã de vozes e histórias, espaço em que o passado dialoga com o presente e se projeta no futuro. Em suas cadeiras, não repousam apenas nomes: repousam trajetórias, sonhos e compromissos profundos com a identidade barretense. Cada encontro, cada publicação, cada celebração constitui um gesto consciente de resistência contra o esquecimento e um ato contínuo de afirmação da riqueza cultural que molda e sustenta a cidade.

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