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Amarelos e Vermelhos: rivalidade e sátira na história barretense

 Amarelos e Vermelhos: rivalidade e sátira na história barretense
  • Por Sueli Fernandes

Em Barretos, quando agosto chega, o ipê-amarelo explode em flores como se a própria cidade se vestisse de ouro para celebrar seu aniversário. Oficialmente consagrado como árvore símbolo pelo Decreto Municipal nº 5.771/2004, ele parecia destinado apenas a encantar os olhos e enfeitar as ruas. Mas a história reservou-lhe um papel inesperado: sua florada, efêmera e deslumbrante, foi convocada ao palco da política. De espetáculo natural, tornou-se bandeira de disputas, metáfora viva da polarização que dividia a comunidade, lembrando a todos que até a beleza pode ser transformada em arma simbólica na luta pelo poder. Sua florada, exaltada em agosto como celebração do aniversário da cidade, foi convocada para o embate nas eleições do Grêmio Literário e Recreativo de Barretos, em uma disputa acirrada ocorrida no final da década de 1920.

No início do século XX, Barretos parecia viver em permanente estado de tensão, como se cada esquina guardasse uma trincheira e cada gesto cotidiano fosse um ato político. A polarização não se restringia à esfera oficial: invadia os espaços privados, convertendo farmácias em gabinetes improvisados, clubes em arenas de combate e jornais em palcos de sátira. Antes mesmo de surgirem os “vermelhos” e “amarelos”, a cidade já se dividia entre os “araras”, liderados pelo coronel Silvestre de Lima, e os “pica-paus”, sob a batuta do coronel Antônio Olympio. Silvestre, proprietário de uma farmácia em tempos em que Barretos ainda não conhecia os cafés como pontos de encontro e conversa, viu seu estabelecimento se transformar em salão de convivência social. Mais do que um comércio, sua farmácia tornou-se espaço natural de troca de ideias, notícias, impressões sobre a vida da cidade e, claro, articulações políticas. Com sua partida, a cidade não conheceu calmaria; ao contrário, viu emergir novas tensões entre Olympio, herdeiro da tradição republicana, e Riolando de Almeida Prado, recém-chegado que logo conquistaria o coração dos barretenses. Dessa disputa nasceram partidos, jornais e até cores simbólicas — “amarelos” e “vermelhos” — que dividiram clubes e praças, revelando uma comunidade capaz de transformar a política em espetáculo e o espetáculo em memória.

Antônio Olympio, representante da continuidade do Partido Republicano Paulista (PRP), mantinha sua força junto ao governo estadual. Riolando, por sua vez, fundou o Partido Popular e ergueu sua própria tribuna: o jornal O Popular, que se tornaria a voz mais estridente contra o chamado Olimpismo. Conquistou a prefeitura com ampla vantagem, mas Olympio, experiente, garantiu junto ao governo estadual o controle do diretório do PRP. Era um pacto curioso: cada um com sua fatia de poder, mas nenhum disposto a ceder espaço.

Anibal da Gama Salgado, prefeito de Barretos de 12.01.1933 a 16.09.1933. Acervo Museu Ruy Menezes.

A rivalidade não se limitava à esfera oficial. No final da década de 1920, até o Grêmio Literário e Recreativo de Barretos transformou-se em palco de uma eleição memorável, marcada pela violência, como registrou Ruy Menezes em uma de suas crônicas. Os candidatos eram Dario Vieira Machado — descrito por Menezes como um homem de boa índole, mas de temperamento controverso e por vezes explosivo — e Aníbal da Gama Salgado. Na véspera da votação, os dois se desentenderam na biblioteca do clube: Dario empalideceu de nervoso, enquanto Aníbal ruborizou de raiva. A cena foi testemunhada por Eleasar, pai de Aníbal, que espirituosamente apelidou os grupos de ‘amarelos’ (ligados a Antônio Olympio) e ‘vermelhos’ (vinculados a Riolando). O episódio, quase cômico, ganhou contornos épicos: os vermelhos triunfaram e celebraram com uma festa exuberante, tingindo o clube inteiro de vermelho — das flores às toaletes — como se cada detalhe fosse uma afirmação de poder.

Dario Vieira Machado. Acervo: MRM

Na Praça Francisco Barreto, dois ipês floresceram em amarelo justamente no dia da posse, e o jornal A Semana, de propriedade do jornalista cearense Paulo Bezerra, patrono da minha cadeira na Academia Barretense de Cultura, não perdeu a oportunidade de transformar o episódio em sátira política. Coube a Xavier Teles, em crônica espirituosa, interpretar a florada como um gesto da própria natureza em favor dos derrotados. Com ironia refinada, chamou a celebração de “Festim de Baltazar”, evocando o banquete bíblico que antecede a queda, como se a exuberância da festa vermelha anunciasse, paradoxalmente, um presságio de fragilidade.

Antiga sede do Grêmio Literário e Recreativo de Barretos, na rua 18. Acervo: Museu Ruy Menezes.

Nicácio Barcelos, fiel aliado de Riolando, não deixou passar a ironia publicada em A Semana. Em resposta no jornal O Popular, lançou mão de um sarcasmo afiado: afirmou que as flores dos ipês, envergonhadas pela apropriação simbólica que lhes fora atribuída, haviam se precipitado ao chão no mesmo dia. O comentário, claro, dialogava com a brevidade natural da florada dos ipês, mas transformava esse detalhe botânico em argumento político. O efêmero da natureza tornava-se metáfora da fragilidade dos adversários, e o humor mordaz de Nicácio convertia a queda das flores em queda de prestígio. Assim, o que poderia ser apenas um ciclo natural das árvores ganhou contornos de disputa literária, revelando como até o ritmo da natureza era convocado para servir de arma na batalha política que incendiava Barretos.

Assim era Barretos: uma cidade em que política e cultura se confundiam, em que farmácias viravam gabinetes, clubes se tornavam arenas e jornais funcionavam como palcos de sátira. Rivalidade e criatividade caminhavam juntas, e cada embate deixava marcas não apenas na memória, mas na própria identidade da comunidade.

Mais do que uma disputa entre Antônio Olympio e Riolando de Almeida Prado, aquele período revelou uma Barretos vibrante, capaz de transformar a política em espetáculo e o espetáculo em história. Uma história que, graças aos registros de Ruy Menezes, permanece viva como testemunho da engenhosidade e da paixão de uma cidade que soube rir de si mesma enquanto travava suas batalhas mais sérias.

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