Fios que Conectam Histórias: A Telefonia em Barretos
- Por Sueli Fernandes
Em Barretos, as comunicações telefônicas se desenvolveram com notável rapidez. O telefone chegou em 1907, apenas três décadas após sua introdução no Brasil, durante a gestão do prefeito Antônio Olympio. O primeiro concessionário dos serviços foi Antônio Witzel, pioneiro na implantação dessa novidade que transformaria a vida urbana. Em 1917, a concessão passou para a empresa Orion, responsável também pela chegada da energia elétrica à cidade, revelando como os avanços tecnológicos caminhavam lado a lado com o crescimento local.
Esse movimento se inseria em uma narrativa mais ampla. Alexander Graham Bell havia apresentado seu invento em 1876, na Exposição do Centenário da Independência dos Estados Unidos, diante de milhares de pessoas, entre elas o imperador D. Pedro II, fascinado pela novidade. No Brasil, já em 1877, o próprio imperador ordenou a instalação das primeiras linhas telefônicas no Palácio da Quinta da Boa Vista. Poucos anos depois, em 1881, a Telephone Company do Brasil recebeu autorização para explorar os serviços de telefonia comercial no Rio de Janeiro e em Niterói.
Em 1923, a empresa canadense Brazilian Traction Light and Power Co. Ltd. renomeou sua subsidiária de telefonia para Brazilian Telephone Company, facultando a tradução para Companhia Telefônica Brasileira (CTB). Trata-se, portanto, da mesma empresa que, em 1928, assumiu os serviços em Barretos. Naquele momento, a cidade já contabilizava mil aparelhos instalados, número superior ao de Bauru, o que revela a atenção especial dada a um município em plena ascensão. Esse protagonismo não era casual: em 1913, Barretos havia recebido o primeiro frigorífico da América Latina, empreendimento que transformou o município em referência nacional no setor pecuário. O dinamismo econômico exigia meios de comunicação modernos e eficientes, e o telefone tornou-se peça fundamental nesse processo.
Até o final da década de 1930, o ritual de uma ligação ainda começava com o giro da manivela: era assim que o usuário chamava a telefonista, responsável por conectar manualmente a chamada. Para gerar a corrente elétrica necessária, o usuário acionava um magneto, pequeno gerador acoplado ao telefone, que transformava o movimento em energia. Esse gesto, quase mecânico, fazia parte da rotina de comunicação da época.

Barretos, contudo, não tardou em abraçar os ventos da modernidade. Em 1939, a cidade destacou-se entre as primeiras a substituir o sistema magneto pelo de bateria central, marco registrado pela própria companhia na Revista Sino Azul, encerrando definitivamente a era das manivelas. O avanço não apenas simplificava o ato de telefonar, mas também simbolizava o compasso da cidade com o ritmo acelerado de seu desenvolvimento econômico e social, consolidando sua posição como um dos grandes centros pecuários do Brasil.
A mesma revista registrou, em 1930, que após a aquisição dos serviços telefônicos em Barretos pela Companhia Telefônica Brasileira, o inspetor observou com desaprovação uma prática recorrente na cidade: “muitos fios eram presos por outro fio isolado e amarrados fortemente ao poste, por baixo do isolador ou da cruzeta”. O relato não apenas denunciava o improviso técnico, mas também repudiava o famoso “jeitinho” brasileiro, que, embora garantisse o funcionamento imediato, comprometia a segurança e a qualidade do serviço.
Esse episódio revela uma tensão histórica: de um lado, a criatividade popular em buscar soluções rápidas; de outro, a necessidade de padrões técnicos que assegurem eficiência e segurança. O “jeitinho” pode ser visto como expressão cultural, mas, no campo das telecomunicações, expõe fragilidades que atravessam décadas.
Não por acaso, quase um século depois, o tema retorna à pauta. Em novembro de 2025, a Prefeitura de Barretos, em conjunto com a CPFL, estabeleceu um prazo de seis meses para que empresas de telefonia e internet regularizem ou removam fios soltos e instalados irregularmente nos postes. A medida, acompanhada pela Defensoria Pública, busca garantir segurança, organização urbana e o cumprimento das leis municipais.
O paralelo é inevitável: se em 1930 o inspetor repudiava a improvisação como ameaça à qualidade do serviço, hoje a administração pública reafirma a mesma preocupação, mas em escala ampliada, envolvendo não apenas a técnica, mas também a estética da cidade e a proteção da população. O fio solto, que antes era sinal de precariedade, tornou-se símbolo de desordem urbana e risco coletivo. Assim, a crítica do passado encontra eco no presente.
Na década de 1970, esse processo de modernização ganhou novo impulso. A TELESP assumiu os serviços telefônicos, inaugurando seu prédio e o novo sistema automático. A partir de então, apenas as ligações de longa distância exigiam o auxílio das telefonistas. Em 1973, o prefeito Ary Ribeiro de Mendonça realizou a primeira ligação automática da cidade, marcando o fim de uma era e o início de outra.

Os telefones públicos, conhecidos popularmente como “orelhões”, começaram a ser instalados na década de 1970 e rapidamente se tornaram parte da paisagem urbana. Mais do que simples equipamentos, eram pontos de encontro, locais de comunicação acessível e símbolos de modernidade. Em Barretos, chegaram a existir 145 aparelhos espalhados pela cidade, servindo tanto para ligações urgentes quanto para conversas cotidianas, aproximando pessoas em um tempo em que nem todos tinham telefone em casa.

Com o passar dos anos, os orelhões instalados em pontos estratégicos de grande circulação, como ruas movimentadas e praças, perderam espaço diante da popularização da telefonia móvel. Em janeiro de 2026, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) iniciou a retirada definitiva dos telefones públicos em todo o Brasil, após o encerramento das concessões do serviço de telefonia fixa. A medida marcou o fim de uma era: os orelhões, que durante décadas foram sinônimo de acesso democrático à comunicação, tornaram-se memória de um tempo em que falar ao telefone era também um ato coletivo, vivido nos espaços públicos e integrado à vida urbana.
A história da telefonia em Barretos é, em essência, a história da própria cidade: marcada por pioneirismo, improvisos, modernizações e símbolos que atravessaram gerações. Dos fios improvisados aos sistemas automáticos, dos orelhões às redes móveis, cada etapa revela não apenas a evolução técnica, mas também os modos como a comunidade se apropriou da comunicação para sustentar seu dinamismo econômico e social. Hoje, quando os fios soltos ainda desafiam a ordem urbana e os orelhões se despedem das ruas, permanece viva a certeza de que a telefonia foi — e continua sendo – um dos fios invisíveis que conduzem a transformação de Barretos ao longo do tempo, conectando passado, presente e futuro.


