Barretos e o duelo entre nome e apelido
- Por Sueli Fernandes
“Pelo amor de Deus, não façam isto!”, foi assim que Ruy Menezes abriu sua crônica de dezembro de 1992, reagindo à ideia, quase surreal, de trocar o nome de Barretos por “Chão Preto”. Convenhamos, amigo leitor: há propostas que assustam… Como alguém poderia cogitar substituir um nome carregado de história por um apelido nascido de uma cena teatral?
Barretos é dessas cidades que parecem feitas sob medida para virar crônica. E uma das suas histórias mais curiosas não brotou das fazendas nem dos bares, mas dos palcos iluminados da São Paulo dos anos 1920. Em cena, um coronel caricatural e uma atriz em biquíni. Tomado pelo entusiasmo, o coronel disparou a frase que se tornaria apelido: “Eh, Chão Preto, terra boa é Barretos!” – ou, para rimar melhor, “Eh, Chão Preto, terra boa é Barreto!”.
Pronto. Bastou uma fala teatral para que Barretos ganhasse um apelido que até hoje insiste em colar na sua identidade. Não foi invenção de barretense, locutor de rodeio ou político local. Foi obra de um personagem de peça, acompanhado de uma moça em traje mínimo. Eis aí a gênese de “Chão Preto”.
Nos anos 20, Barretos era o eldorado paulista: dinheiro correndo solto com o comércio de gado, o frigorífico pulsando como coração da economia, cassinos fervendo, bares e restaurantes cheios de música, vedetes e alegria. Nesse cenário, “Chão Preto” virou sinônimo de fartura e exagero. Mas tradição, como lembrava Ruy Menezes, não se inventa em palco de teatro.

E não era exagero: a mercantilização de gado movimentava cifras tão grandes que a cidade virou vitrine de cassinos luxuosos, cafés elegantes e cabarés disputados. Os jornais da época falavam em “coqueluche barretense”. A revista carioca O Furão, em 1920, anunciava a vinda de vedetes famosas — Lizon, Lulu e Laura — que deixavam os “cacarecos” do cabaré carioca para brilhar em Barretos. Era comum ver dançarinas francesas desembarcando para entreter fazendeiros milionários, políticos e comissários de boiadas. Até figuras curiosas, como Philogônio Theodoro de Carvalho, apareciam como clientes assíduos desses ambientes. Diversos anúncios de casas de diversão, pensões para artistas, cassinos e cafés-concerto preenchiam as páginas de revistas e jornais da época — como estes, extraídos de O Furão, de 1920, que ilustram esta crônica.


E foi justamente esse tema — a ideia de um plebiscito para oficializar o apelido — que Ruy transformou em sua última crônica, em dezembro de 1992. Com ironia fina, ele contestava veementemente e repetia: “Pelo amor de Deus, não façam isto!”. Poucas semanas depois, em janeiro de 1993, Ruy nos deixou.
Dá para acreditar? Um plebiscito para trocar Barretos por “Chão Preto”! Seria como reinventar a geografia, mudar a história e criar uma identidade que nunca existiu. Afinal, Barretos não tem terra preta; sua verdadeira riqueza era o capim gordura, alimento do gado e motor da economia. Se fosse para buscar apelido justificável, “Capim Gordura” ou algo inspirado nisso, faria mais sentido — embora ninguém quisesse carregar um gentílico derivado disso. Imagine só: “capim-gordurenses”, ou, quem sabe, algo ainda mais indigesto!
Mas aqui está o ponto curioso: mais fértil do que qualquer “Chão Preto” foi a imaginação dos que cogitaram esse plebiscito. Uma fertilidade que não brotou da terra, mas da mente — capaz de transformar uma rima improvisada em palco burlesco em proposta política. Era como se acreditassem que bastava um apelido para reescrever a alma de uma cidade. No fundo, o plebiscito nunca foi sobre o solo, mas sobre a fantasia. E se “Chão Preto” prosperou como apelido, foi porque a imaginação humana insiste em cultivar exageros, sonhos e até disparates.
O apelido, no entanto, prosperou. Em 1948, o Dr. Urbano França Canoas resolveu adotá-lo como título de sua coluna no Correio de Barretos, assinada sob o pseudônimo Urbanus. Ali, exaltava personagens e espalhava “Chão Preto” até que o nome se tornasse parte da alma barretense. Depois, a expressão ganhou voz na música, em uma moda de catira gravada por Vieira & Vieirinha.
O nome oficial, Barretos, é homenagem a um de seus fundadores, perpetuando memória e tradição. Já “Chão Preto”, consagrado pela pena de Urbanus, traduz de forma carinhosa a fartura da cidade — fartura que não era apenas simbólica, mas palpável: dinheiro circulando nas ruas, fruto da força do frigorífico e da intensa compra e venda de gado.
No fundo, nome e apelido não precisam disputar espaço. Convivem em harmonia: Barretos preserva sua história, enquanto “Chão Preto” acrescenta afeto e irreverência. Um dá o peso da tradição; o outro, o tempero da boa piada. E a cidade, esperta, guarda os dois no bolso — como quem carrega um tesouro e uma anedota pronta para ser contada.
Este texto nasceu inspirado em uma crônica de Ruy Menezes, publicada no livro As Crônicas do Ruy Menezes, presente que recebi de Wilson Franco de Brito, jornalista barretense que tanto contribuiu para a imprensa, a cultura, o turismo e, claro, para a grandiosa Festa do Peão de Boiadeiro. É uma forma de reconhecer que as histórias de Barretos não se limitam às arenas ou aos palcos: elas também se perpetuam nas palavras, nos registros, nas ações e na memória daqueles que, como Ruy Menezes e Wilson Franco de Brito, souberam transformar a vida da cidade em narrativa viva, preservando tradições e multiplicando afetos.
