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Quando Barretos ajudou a dar asas ao Brasil

 Quando Barretos ajudou a dar asas ao Brasil
  • Por Sueli Fernandes

No início do século XX, quando a aviação ainda despertava fascínio, ousadia e desconfiança, o mundo assistia aos aviões deixarem de ser simples curiosidades mecânicas para se tornarem ferramentas estratégicas capazes de encurtar distâncias e transformar sociedades. No Brasil, esse processo ganhou força com a criação do Ministério da Aeronáutica, em 20 de janeiro de 1941, que recebeu a missão de estruturar um setor ainda marcado pela escassez de pilotos, aeronaves, aeroportos, indústrias especializadas e normas de segurança. Sob a liderança de Joaquim Pedro Salgado Filho, o país precisou construir quase do zero uma cultura aeronáutica capaz de atender às demandas civis e militares. A Segunda Guerra Mundial acelerou essa transformação ao evidenciar a importância estratégica do poder aéreo, impulsionando a criação da Força Aérea Brasileira, a expansão das escolas de formação, a construção de infraestrutura aeroportuária e campanhas de incentivo à aviação. Nesse contexto, a Campanha Nacional de Aviação mobilizou governos, empresários, aeroclubes e cidadãos para arrecadar recursos e formar pilotos, considerados essenciais para o desenvolvimento nacional. Foi nesse movimento de modernização e pioneirismo que Barretos também se inseriu, acompanhando desde cedo os primeiros passos da aviação brasileira.

Quando um avião chegou de trem

Décadas antes da criação do Ministério da Aeronáutica, os barretenses já haviam testemunhado o nascimento da era aérea.

Em julho de 1915, por iniciativa do prefeito João Machado de Barros, a cidade recebeu a visita do aviador Luís Bergman. A expectativa foi enorme. Para muitos moradores, aquela seria a primeira oportunidade de ver um avião.

Curiosamente, o aparelho não chegou voando.

Bergman desembarcou na estação ferroviária acompanhado de sua aeronave desmontada, transportada por trem. A população lotou a gare para recepcionar o homem que desafiava a gravidade. Homens e mulheres, jovens e idosos, autoridades e trabalhadores reuniram-se para conhecer de perto a moderna máquina que prometia mudar o mundo.

Aeroplano modelo Bleriot.

No dia seguinte, diante de uma multidão reunida em um campo de futebol improvisado como pista de pouso e decolagem, o aviador colocou nos céus de Barretos um monoplano francês Blériot. O público observou maravilhado as acrobacias realizadas sobre a cidade. Do alto, Bergman lançou impressos coloridos que flutuaram sobre os espectadores como uma chuva de novidades.

Aquele voo marcou simbolicamente o início da aviação em Barretos.

Era a primeira vez que um avião decolava e aterrissava em solo barretense.

Os céus deixam de ser novidade

Nos anos seguintes, o interesse pela aviação continuou crescendo.

Em fevereiro de 1921, o aviador João Busse organizou uma incursão aérea ligando Ribeirão Preto a Barretos. Pouco depois, no dia 2 de março, o tenente Reinaldo Gonçalves aterrissou no campo do Hipódromo conduzindo uma aeronave de 150 HP.

Os olhos da população estavam voltados para o horizonte. Quando o avião finalmente surgiu entre as nuvens, aproximando-se para o pouso, a multidão explodiu em aplausos. O aparelho desceu suavemente, cercado imediatamente por curiosos ansiosos para observar de perto aquela maravilha tecnológica.

Aeroplano modelo Aviatik

Nos dias seguintes, os voos de demonstração ganharam a cidade. Busse pilotando seu Aviatik levou passageiros ilustres para experimentaram a sensação de voar e os aviadores realizaram apresentações acrobáticas que despertaram ainda mais entusiasmo entre os moradores.

Ao longo da década de 1920, o Hipódromo Barretense transformou-se em ponto de referência para aeronaves que visitavam a região.

A aviação já não era apenas uma novidade. Tornava-se parte da vida da cidade.

O nascimento do Aeroclube de Barretos

A paixão dos barretenses pelos aviões logo gerou um passo ainda mais ambicioso: formar seus próprios pilotos.

Em 1939, foi criada a Escola de Aviação Civil que daria origem ao Aeroclube de Barretos. Entre seus principais idealizadores estava o médico Abel Coimbra, personagem fundamental na consolidação da cultura aeronáutica local.

Abel Coimbra.

Ao lado de outros entusiastas, Abel liderou os esforços que resultaram na fundação oficial do Aeroclube em 7 de fevereiro daquele ano. O campo do antigo Hipódromo, utilizado posteriormente como aeroporto, tornou-se o centro das atividades de instrução aeronáutica.

A iniciativa estava perfeitamente alinhada ao movimento nacional que buscava ampliar a formação de pilotos civis. Enquanto o governo federal preparava a estrutura que sustentaria a expansão da aviação brasileira durante a década de 1940, Barretos já investia na formação de aviadores e no fortalecimento de sua infraestrutura local.

Mas o caminho não seria fácil.

Tragédia e perseverança

A história da aviação, em todo o mundo, sempre foi escrita com doses equivalentes de coragem e risco.

Em 27 de fevereiro de 1940, Barretos viveu um de seus episódios mais dolorosos. Durante um voo de treinamento, um acidente custou a vida de Abel Coimbra e do sargento aviador Geraldo Horta Costa, instrutor vinculado ao Aeroclube de Uberlândia.

A aeronave perdeu sustentação durante uma manobra a cerca de cinquenta metros de altura e caiu violentamente no campo de aviação.

A tragédia abalou profundamente a cidade. Contudo, em vez de encerrar o projeto aeronáutico barretense, reforçou a determinação daqueles que acreditavam no futuro da aviação.

O sargento Antônio Meirelles assumiu a continuidade dos trabalhos. Os próprios destroços da aeronave acidentada foram utilizados como material didático para instrução dos alunos.

A escola seguiu em frente.

Um celeiro de pilotos a serviço do Brasil

Com a entrada do Brasil na Segunda Guerra Mundial, em 1942, o Aeroclube de Barretos passou a desempenhar um papel importante na formação de aviadores. A mobilização da juventude local foi imediata, mas os altos custos da instrução aérea representavam um obstáculo para muitos candidatos.

Para superar essa dificuldade, a sociedade barretense organizou campanhas de apoio, como a Campanha de Pilotos, que financiava integralmente a formação de alunos, e a Campanha de Horas de Voo, voltada ao custeio parcial do treinamento. Paralelamente, a Campanha Nacional de Aviação, liderada por Assis Chateaubriand e pelo ministro Salgado Filho sob o lema “Deem Asas ao Brasil”, garantiu ao Aeroclube recursos e aeronaves que ampliaram sua capacidade de ensino. Graças a esse esforço conjunto entre governo e comunidade, Barretos destacou-se nacionalmente, formando 45 pilotos em 1942 e outros 48 em 1943, tornando-se um dos mais importantes centros de formação aeronáutica do interior do país e contribuindo diretamente para o fortalecimento da aviação brasileira.

Salgado Filho, ministro da Aeronáutica, batiza o avião Barão de Tamandaré, uma das aeronaves incorporadas à frota do Aeroclube de Barretos graças à mobilização nacional em favor da aviação. Revista Cruzeiro, 1942. Acervo da Biblioteca Nacional.

Abaixo, solenidade de formatura dos pilotos do Aeroclube de Barretos, em 1943. O evento teve como paraninfo o tenente-coronel Octacílio T. Ururay e contou com a presença do general Mendonça Lima, então Ministro da Viação e Obras Públicas, destacando a importância alcançada por Barretos na formação aeronáutica nacional. Fonte: Revista Sino Azul. Acervo da Fundação Telefònica Vivo.

Abaixo, os 48 pilotos brevetados pelo Aeroclube de Barretos em 1943, turma que consolidou a cidade como um dos mais importantes centros de formação aeronáutica do interior brasileiro. Fonte: Revista Sino Azul. Acervo da Fundação Telefònica Vivo

Dali surgiram nomes que se destacariam no setor aeronáutico

Entre eles estava Roberto Perondini. Formado em Barretos, obteve o primeiro lugar em um curso de monitores realizado em São Paulo e conquistou habilitação para pilotar dezessete tipos diferentes de aeronaves.

Outro destaque foi Osvaldo Malaman, que alcançou mil horas de voo e se tornou piloto de testes da Força Aérea Brasileira. Participou de missões relevantes para a integração territorial do país, incluindo trabalhos relacionados ao traçado da futura rodovia São Paulo-Brasília e operações vinculadas ao Serviço de Proteção aos Índios.

As mulheres também conquistaram os céus

A trajetória aeronáutica de Barretos guarda também um capítulo frequentemente pouco lembrado, mas de grande significado. Laura de Melo Leme tornou-se a primeira mulher barretense a conquistar o brevê de piloto, em uma época em que a aviação era um ambiente quase exclusivamente masculino. Sua conquista representou não apenas uma realização pessoal, mas também a superação de barreiras sociais e culturais que limitavam a participação feminina nesse universo. Embora outras mulheres tenham chegado a frequentar as aulas de pilotagem naquele período, acabaram desistindo ao longo da formação, o que torna a determinação e a persistência de Laura ainda mais notáveis.

Chafei Amsei – o educador

O aeroporto de Barretos leva o nome de Chafei Amsei, personagem de relevo na história da aviação local. Nascido em 11 de junho de 1915, enfrentou dificuldades desde a infância. Com a morte do pai, aos 12 anos, passou a dividir com o irmão Assem a responsabilidade pelo sustento da família. Mesmo diante das limitações financeiras, concluiu o curso primário com grande esforço e trabalhou em diferentes ofícios, como barbeiro e ourives.

Em 1937 ingressou no Exército Brasileiro, em Quitaúna (SP), onde se especializou em telegrafia e atuou como soldado observador e radiotelegrafista. Três anos depois, casou-se com Noêmia Votta e iniciou sua formação como piloto civil no Aeroclube de Barretos, integrando a segunda turma de aviadores brevetados da instituição.

Chafei Amsei (quinto, da esquerda para a direita) ao lado de alunos e instrutores do Aeroclube de Barretos. Acervo: Museu Ruy Menezes.

Entre 1940 e 1945, aperfeiçoou-se em diversas modalidades aeronáuticas, incluindo voo a vela, hidroviação, acrobacia aérea e paraquedismo. Seu talento e dedicação despertaram a admiração de lideranças políticas e fazendeiros da região, que apoiaram sua qualificação profissional. Graças a esse incentivo, em 1945 pôde seguir para a capital paulista, onde realizou cursos de instrutor de voo, planadores e acrobacia aérea, além de obter habilitações para aeronaves convencionais e multimotores.

De volta a Barretos no final de 1945, foi contratado pelo Aeroclube para ministrar aulas teóricas e práticas de aviação, contribuindo decisivamente para a formação de gerações de pilotos e para o fortalecimento da cultura aeronáutica na cidade. Aposentou-se em 1966 e faleceu em 29 de julho de 1988. Seu nome permanece ligado à história da aviação barretense, eternizado no aeroporto, inaugurado em 1979, como reconhecimento por sua trajetória de pioneirismo, dedicação e serviço à comunidade.

Como instrutor, Chafei ajudou a transformar o entusiasmo dos pioneiros em uma tradição aeronáutica duradoura.

Cuidado, cruzamento com aviões

Entre os muitos episódios curiosos da história da aviação barretense, poucos são tão pitorescos quanto o registrado por um jornal da época: o aeroporto era cortado por uma estrada municipal, obrigando motoristas e pilotos a compartilharem o mesmo espaço. Para evitar surpresas desagradáveis, foi instalada uma placa de trânsito que se tornou lendária: “Cuidado, cruzamento com aviões”.

Correio Paulistano, 1972.

Enquanto em outras cidades os condutores precisavam se preocupar apenas com carroças, automóveis ou pedestres, em Barretos havia a possibilidade bastante real de encontrar uma aeronave taxiando pela frente. A cena, que hoje parece saída de uma crônica bem-humorada, ilustra o espírito de uma época em que o crescimento da cidade e os primeiros passos da aviação conviviam de forma surpreendentemente próxima, tornando Barretos um lugar onde até o trânsito tinha de abrir passagem para os aviões. Afinal, poucas cidades podiam se orgulhar de possuir um lugar onde o motorista precisava olhar para os lados e, de vez em quando, também para o alto.

Uma cidade conectada ao destino da aviação brasileira

Do Blériot transportado de trem em 1915 às dezenas de pilotos formados pelo Aeroclube nas décadas seguintes, Barretos não apenas assistiu à conquista dos céus: participou dela. Entre pioneiros, instrutores, aviadores e sonhadores, a cidade escreveu um capítulo próprio na história da aviação brasileira e garantiu seu lugar entre aqueles que ajudaram a transformar o voo em realidade nacional.

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