Comitê Popular de Luta realiza carreata “O futuro começa agora” neste domingo
O Centenário da Grande Tempestade de Itambé
- Por Sueli Fernandes
Há exatos cem anos, um dos acontecimentos mais extraordinários da história de Barretos transformava para sempre a vida dos habitantes de Itambé, atual Ibitu. Na década de 1920, o distrito era um importante núcleo rural da região, reunindo mais de três mil moradores entre lavradores, comerciantes, criadores de gado, pequenos industriais e suas famílias. O cotidiano girava em torno das lavouras, da pecuária, da escola, do comércio e da fé que unia aquela população espalhada entre o povoado e as propriedades rurais vizinhas.
Tudo parecia seguir seu curso habitual naquela quarta-feira, 22 de setembro de 1926. A primavera havia chegado depois do longo período seco do inverno, os campos aguardavam as chuvas renovadoras que prometiam fertilidade às plantações e pastagens. O calor retornava gradualmente, os dias se alongavam e o horizonte parecia anunciar mais uma estação de prosperidade.
Mas algo parecia deslocado da normalidade.
Ao cair da tarde, moradores observaram uma névoa incomum espalhando-se pelo vale. Alguns a descreveriam posteriormente como uma névoa pardacenta, densa: como se houvesse óleo suspenso no ar, conforme relatou o Correio da Manhã. Pouco depois, outro detalhe chamou a atenção dos habitantes.
Por volta das sete horas da noite, um cão começou a uivar.
Não se tratava de um latido comum. Era um lamento longo, repetitivo e inquietante, que se propagava pelas ruas silenciosas do distrito. O som reverberava entre as casas, alcançava a Cadeia, a Delegacia, as igrejas, o Cartório de Registro Civil e a escola municipal. Alguns moradores ignoraram o episódio; outros fizeram o sinal da cruz. Ninguém poderia imaginar que aquele detalhe aparentemente banal permaneceria gravado de forma tão profunda na memória coletiva.
Dias depois, ao relatarem os momentos que antecederam a tragédia, diversos moradores voltariam a mencionar o estranho comportamento do animal. O episódio foi registrado pelo jornal A Rua, do Rio de Janeiro, em edição de 28 de setembro de 1926, tornando-se um dos elementos mais lembrados na reconstrução daquela noite.

Pouco depois das oito horas, o céu mudou.
Nuvens escuras avançaram rapidamente sobre o distrito. Em questão de minutos, a tranquilidade desapareceu. A atmosfera tornou-se pesada, opressiva. Então o vento chegou.
E chegou com uma força que ninguém ali jamais havia presenciado.
Doze minutos de terror
O que atingiu Itambé naquela noite estava longe de ser uma tempestade comum. Em poucos minutos, o distrito viu-se à mercê de uma força da natureza tão violenta quanto incompreensível para seus moradores. O vento arrancava telhados, derrubava árvores centenárias e lançava destroços pelos ares. Relatos colhidos nos dias seguintes descrevem telhas subindo ao céu como se tivessem asas. Móveis, cercas e objetos de toda espécie eram arrastados pela ventania.
Ao mesmo tempo, uma intensa chuva de granizo castigava a população. As pedras de gelo foram descritas como tendo o tamanho de ovos de galinha e, em alguns depoimentos, surgem referências a blocos de granizo que teriam alcançado quatro ou até dez quilos. Ainda que esses números provavelmente reflitam o impacto emocional provocado pela tragédia, revelam o espanto de quem presenciou um fenômeno sem precedentes na história local.
Acima das rajadas de vento e da chuva de pedra, os trovões ressoavam de forma quase ininterrupta. Seus estrondos misturavam-se ao ruído de paredes desabando, telhados sendo arrancados e construções inteiras cedendo à violência da tempestade.
Dentro das casas, o instinto tomou o lugar da razão.
Famílias inteiras buscaram abrigo onde fosse possível. Muitos se esconderam sob camas e mesas. Crianças choravam. Mulheres rezavam. Homens tentavam proteger seus familiares sem compreender exatamente contra o que lutavam. A sensação era de impotência diante de uma força que parecia vir de todos os lados ao mesmo tempo.
Lá fora, a paisagem desaparecia sob o vendaval. Raios atingiam a região em sucessão incessante, derrubando postes telefônicos e rompendo a fiação. Árvores eram arrancadas pela raiz. Cafezais tombavam. Animais de grande porte eram derrubados pela combinação dos ventos e da chuva de granizo.
Então, da mesma forma repentina com que começara, a tempestade terminou.
Foram apenas doze minutos.
Doze minutos suficientes para mudar a história de Itambé.
Quando o silêncio voltou, ele já não era o mesmo. Era um silêncio de espanto, interrompido apenas pelos chamados que começavam a ecoar entre os escombros.
Aos poucos, os moradores deixaram os esconderijos improvisados. As nuvens se dissiparam rapidamente e a lua passou a iluminar um cenário difícil de acreditar. Grande parte da vila estava destruída.
Temendo encontrar vítimas soterradas, os habitantes organizaram-se imediatamente em grupos de busca. Pelas ruas cobertas de destroços, ouviam-se vozes chamando por parentes, amigos e vizinhos.
“Fulano…”
“Ciclano…”
“Está tudo bem aí?”
Homens e mulheres passaram a remover escombros com as próprias mãos. Procuravam familiares desaparecidos, verificavam casas destruídas e tentavam socorrer os feridos. As estradas estavam bloqueadas por árvores derrubadas. Os postes telefônicos haviam desaparecido. A comunicação com Barretos e com as localidades vizinhas fora interrompida.
Durante horas, Itambé permaneceu isolada.
Naquela noite, não havia ajuda a caminho. Restavam apenas os próprios moradores, amparando-se mutuamente em meio à destruição.
A tragédia ganha as manchetes
Fenômenos atmosféricos daquela intensidade eram raros no interior paulista. A destruição provocada em Itambé despertou rapidamente a atenção da imprensa, atraindo jornalistas de diversas regiões do país interessados em compreender e registrar o que havia acontecido naquela pequena comunidade rural de Barretos.

As reportagens publicadas nos dias seguintes preservaram alguns dos relatos mais impressionantes sobre a tempestade. Em entrevista à Tribuna de São Paulo, um morador descreveu o fenômeno como um gigantesco redemoinho que parecia arrancar as casas do chão. Recordava-se do “barulho infernal” provocado pela sucessão de trovões e desabamentos, da chuva de granizo que quebrava os telhados e do desespero das famílias que, entre preces e pedidos de misericórdia, acreditavam estar diante do fim de tudo. Terminada a tormenta, juntou-se aos demais moradores e passaram a retirar sobreviventes dos escombros das casas destruídas.
Outro testemunho marcante foi o do boticário Sebastião Bernardo Ferreira, proprietário da Pharmácia São João. Em entrevista ao jornal A Rua, relatou o momento em que viu as paredes de sua residência ceder e tombar para o interior da casa, soterrando sua esposa, seus filhos e o estoque da farmácia. Seguiram-se momentos de aflição e incerteza, até que os familiares foram encontrados vivos sob uma cama que resistira ao desabamento. Para Sebastião, a sobrevivência da família só poderia ser explicada como um milagre.
Enquanto isso, em Barretos e Olímpia, registravam-se apenas chuvas moderadas. A dificuldade de acesso ao distrito e a interrupção das comunicações fizeram com que as primeiras notícias circulassem de forma fragmentada. As informações iniciais eram incompletas, muitas vezes contraditórias, mas apontavam para uma catástrofe de grandes proporções.
Os jornais das maiores cidades passaram a acompanhar o caso. O fenômeno foi descrito, conforme a publicação, como catástrofe, tufão, ciclone ou furacão. Em 27 de setembro de 1926, a Gazeta do Povo, de Santos, estampava a manchete: “A vila de Itambé, no município de Barretos, totalmente arrasada pelo terrível fenômeno”, mencionando ainda a existência de 135 feridos segundo os primeiros levantamentos disponíveis.
A repercussão foi tamanha que ultrapassou as fronteiras nacionais. À época, os registros indicavam apenas um caso semelhante no estado de São Paulo, ocorrido em Chavantes, em 1923. A tempestade de Itambé tornou-se, assim, um dos mais notáveis episódios meteorológicos já documentados em território paulista.

A comoção alcançou inclusive organizações humanitárias internacionais. A Cruz Vermelha Brasileira recebeu manifestações de solidariedade e ofertas de auxílio vindas do exterior. Posteriormente, agradeceu a mobilização, esclarecendo que, apesar da devastação material, a situação não exigia uma campanha internacional de socorro.
E foi justamente nesse ponto que surgiu o aspecto mais surpreendente da tragédia.
Apesar da violência quase inacreditável do fenômeno, não houve vítimas fatais.
Os números de feridos variam conforme a fonte consultada. As primeiras notícias falavam em mais de uma centena de atingidos, mas os levantamentos posteriores indicam números consideravelmente menores. Houve dezenas de feridos, danos materiais expressivos e profundas marcas emocionais, mas nenhuma morte humana foi registrada.
As reportagens também procuraram compreender a extensão da destruição. Segundo a Gazeta do Povo, dois dias após a tempestade ainda era possível encontrar aves e animais mortos espalhados pela área atingida. Os estudos realizados na época indicavam que o fenômeno percorreu uma faixa relativamente estreita, avançando de Noroeste para o Nordeste, abrindo um verdadeiro corredor de devastação. Em seu trajeto, derrubou árvores centenárias, arrasou trechos de vegetação nativa e deixou profundas cicatrizes na paisagem.
A força destrutiva manifestou-se de forma seletiva. Lavouras de café localizadas fora da faixa de passagem do vendaval permaneceram praticamente intactas, enquanto propriedades situadas em seu caminho sofreram danos severos. Foi o caso da fazenda de Herculano Taveira, primeiro juiz de paz local, localizada a cerca de três quilômetros do núcleo urbano, onde nem a residência nem os cafezais resistiram à ação dos ventos.
As próprias dimensões da tragédia variam conforme as fontes consultadas. Alguns jornais mencionavam 93 moradias no povoado; outros estimavam cerca de 300 residências. Os números relativos aos prejuízos também apresentam divergências. Há consenso quanto à destruição de pelo menos 42 casas, embora algumas publicações elevem esse total para mais de 70 imóveis.
Independentemente das diferenças numéricas, todas as fontes convergem em um aspecto fundamental: Itambé sofreu uma devastação de grandes proporções. Entre os relatos mais impressionantes está o de um quarteirão inteiro cujas casas perderam simultaneamente suas paredes frontais, evidenciando a direção predominante e a extraordinária força dos ventos.
Nem mesmo os principais símbolos da comunidade foram poupados. A Igreja de Nossa Senhora da Abadia foi praticamente destruída, permanecendo de pé apenas o cruzeiro existente em seu largo, onde hoje é a Escola Estadual Lacy Bonilha de Souza. Já da recém-construída Igreja de São Sebastião restou apenas a torre. É possível que sua estrutura vazada, dotada de amplas aberturas, tenha contribuído para reduzir a pressão exercida pelos ventos, permitindo que o ar circulasse com maior facilidade em seu interior. Em meio às ruínas, esses elementos adquiriram um significado que transcendia a arquitetura. Para uma população profundamente religiosa, passaram a representar resistência, esperança e a possibilidade de reconstrução.


Em visita realizada em 24 de setembro, um repórter do jornal A Rua registrou outro detalhe impressionante: ainda havia pedras de granizo espalhadas pelo chão, lentamente derretendo sob o sol. Dias após a tempestade, o gelo permanecia como evidência concreta da violência do fenômeno que abalara o distrito.
Diante da calamidade, Barretos mobilizou-se rapidamente. Autoridades municipais organizaram ações emergenciais, campanhas de arrecadação foram abertas e o prefeito Dr. Riolando de Almeida Prado dirigiu-se ao local para acompanhar os trabalhos de socorro. O tradicional Éden Teatro promoveu espetáculos beneficentes em favor dos atingidos, enquanto o poder público municipal e o Governo do Estado contribuíam para a reconstrução das moradias e dos prédios públicos.
Aos poucos, as ruínas deram lugar às obras de recuperação. Mas, embora casas e edifícios pudessem ser reconstruídos, as lembranças daquela noite permaneceriam por muito mais tempo na memória dos moradores.
As versões da tragédia
A destruição material provocada pela tempestade podia ser medida em paredes derrubadas, telhados arrancados e lavouras devastadas. Mais difícil era compreender o que havia acontecido. Em uma época em que fenômenos atmosféricos daquela magnitude eram pouco conhecidos e ainda menos compreendidos, muitos moradores buscaram respostas além do mundo material.
Não demorou para que antigas histórias voltassem a circular.
Em reportagem publicada poucos dias após o desastre, o jornal A Rua registrou uma dessas versões. Segundo um morador, cerca de quinze anos antes um vigário vindo de São Carlos teria participado das festividades religiosas da vila. Durante uma refeição, recusou a carne seca que lhe foi servida e insistiu em comer bacalhau, um produto raro e difícil de obter em uma localidade tão distante dos grandes centros. A exigência desagradou o anfitrião, que respondeu de forma ríspida ao sacerdote.
Com o passar do tempo, espalhou-se entre alguns habitantes a crença de que o padre, ofendido, teria deixado uma maldição sobre o lugar. Nascia assim a primeira das chamadas “Pragas do Padre”.
A força dessa crença tornou-se evidente nos dias que se seguiram à tempestade. O mesmo repórter relatou que, ao acompanhar a visita de um sacerdote de Barretos à vila destruída, presenciou uma cena reveladora. Um morador aproximou-se e perguntou se a calamidade poderia ter sido provocada pela presença de algum pecador na comunidade. Caso aquela fosse a razão do castigo, afirmou, os próprios habitantes tratariam de expulsar o culpado.
O padre procurou tranquilizá-lo. Disse que a tragédia não era consequência dos pecados de nenhum indivíduo e que deveria ser entendida como uma provação permitida por Deus. Suas palavras ajudaram a conter os temores e a acalmar os ânimos em um momento de grande sofrimento e incerteza.
Mas aquela não era a única explicação em circulação.
Outra versão atribuía a suposta maldição a um episódio envolvendo dois sacerdotes em viagem religiosa. Segundo a tradição oral, o proprietário da pensão local, conhecido como Santana, teria colocado espigas de milho e fumo sob as selas dos animais dos visitantes. Ao montar, um dos cavalos empinou, derrubando o religioso e provocando constrangimento geral. Com o passar dos anos, o episódio foi reinterpretado por alguns moradores como a origem de uma nova praga lançada contra a localidade.
Havia ainda uma terceira narrativa, mais recente e ligada à devoção popular. Durante a procissão de São Sebastião realizada em 1925, a imagem do padroeiro, que tradicionalmente deveria abrir o cortejo, teria sido colocada ao final da procissão. Para alguns habitantes, a tempestade ocorrida no ano seguinte seria uma manifestação do descontentamento do santo diante da quebra daquela tradição.
Nenhuma dessas histórias explica o fenômeno que atingiu Itambé em setembro de 1926. Elas explicam, contudo, algo igualmente importante: a maneira como os moradores procuraram interpretar uma experiência que parecia desafiar toda compreensão.
Em uma comunidade profundamente marcada pela religiosidade, a devastação encontrou sentido nas narrativas de pragas, castigos, provas da fé e sinais divinos. Não como explicações meteorológicas, mas como respostas humanas diante de um acontecimento extraordinário.
O vento virou identidade
Há, porém, uma curiosa coincidência histórica que parece amarrar definitivamente essa narrativa. Em 1944, dezoito anos após a grande tempestade, o distrito deixou de se chamar Itambé e passou a denominar-se Ibitu, por força do Decreto-Lei Estadual nº 14.334, de 30 de novembro daquele ano. Na língua tupi-guarani, Ibitu significa “vento”.
Talvez seja apenas uma coincidência. Mas é difícil ignorar seu simbolismo. O lugar marcado por uma das mais violentas tempestades já registradas na região acabaria adotando, anos mais tarde, um nome que remete justamente ao elemento que mudou seu destino em apenas doze minutos.
Mais do que isso: o vento sempre fez parte da paisagem local. Situado em um vale cercado por colinas, o povoado é conhecido pela circulação constante do ar, uma característica geográfica que acompanha há gerações a vida de seus moradores. Em Ibitu, o vento não é apenas um fenômeno da natureza. É uma presença cotidiana. Faz parte da memória, da paisagem e da identidade do lugar.
Cem anos depois, a tempestade pertence à história. As casas foram reconstruídas, as lavouras voltaram a produzir e a vida seguiu seu curso. Mas a lembrança daquela noite permanece viva nos documentos, nos jornais e nas narrativas transmitidas de geração em geração.
A seguir, um registro publicado pela Revista da Semana, editada no Rio de Janeiro em 2 de outubro de 1926, que apresenta um panorama dos estragos causados pela tempestade.


