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Dr. Wilson Palma da Rocha e as Noitadas Folclóricas que marcaram Barretos
A história de Barretos guarda com carinho o nome de Dr. Wilson Palma da Rocha, médico e folclorista que soube unir vida pessoal e vida pública em uma trajetória marcada pela dedicação ao próximo e pelo compromisso com a cultura. Filho do médico Francisco Henrique Lino da Rocha e Elisa Alves Palma da Rocha, cresceu em um ambiente onde o cuidado com as pessoas e o apreço pelas tradições populares faziam parte do cotidiano. Dessa herança nasceram duas paixões que o acompanhariam por toda a vida: a Medicina e o Folclore.
Casou-se duas vezes e construiu uma família que acompanhou sua caminhada e hoje preserva sua memória. Do primeiro casamento nasceu Francisco Henrique Lino da Rocha Neto, casado com Ligia Blanco. Do segundo, com Terezinha Lovisoto Palma da Rocha, vieram Rita de Cássia Rocha, casada com Antônio Capucho, e Elisa Maria Rocha, mãe de Pedro Henrique e Helena. Graças ao cuidado de seus familiares, documentos, fotografias e lembranças ajudam a manter viva a história de sua atuação em Barretos.
Formado em Medicina no Rio de Janeiro em 1948, Dr. Wilson dedicou-se à Pediatria com profundo senso de missão. Atuou na Santa Casa de Barretos, onde foi Chefe do Berçário por quinze anos, trabalhou no Hospital Santa Inês e prestou relevantes serviços à saúde pública. Sua dedicação lhe rendeu o reconhecimento da comunidade e, em 1970, recebeu o título de Cidadão Honorário de Barretos.
Mas sua atuação não se limitou à medicina. Desde os 17 anos estudava Folclore, inicialmente ao lado do pai. Com o passar do tempo, aprofundou seus conhecimentos por meio das principais obras brasileiras e latino-americanas sobre cultura popular, tornando-se um estudioso respeitado e uma referência no tema. Para ele, o folclore não era apenas objeto de pesquisa. Era uma expressão viva da identidade de um povo, algo que merecia ser valorizado, preservado e compartilhado.

Foi nesse esforço de valorização da cultura popular que Dr. Wilson deixou uma de suas contribuições mais marcantes para a história de Barretos. Durante 15 anos, esteve à frente das Noitadas Folclóricas, que integravam a programação oficial da Festa do Peão de Boiadeiro e se tornaram uma referência cultural dentro do evento. Sob a coordenação de Dr. Wilson Palma da Rocha, o evento alcançou grande projeção e se transformou em uma das atrações de maior prestígio da festa, levando a festa a ser conhecida como “Capital do Folclore”.

Nos primeiros anos, as apresentações aconteciam na Praça Francisco Barreto, no coração da cidade. O palco era simples, improvisado sobre um tablado rústico sustentado por uma espécie de latões e iluminado por varal de luzes com lâmpadas amareladas. O registro ao lado é do Palco da Festa do Peão de Barretos, em 1969, revelando a rusticidade e a simplicidade da estrutura da época. Sobre o palco, uma apresentação de catira, em destaque Dr. Wilson.
Com o aumento do público, as Noitadas Folclóricas foram transferidas para o Recinto Paulo de Lima Corrêa. A mudança acompanhou a expansão do evento e permitiu que as apresentações alcançassem ainda mais visibilidade. Ano após ano, grupos folclóricos de diversas regiões do Brasil e do exterior passaram pelos palcos de Barretos, levando ao público danças, músicas, costumes e tradições que revelavam a riqueza cultural de diferentes povos.
Quando esteve à frente da coordenação artística das Noitadas, Dr. Wilson ajudou a construir uma programação reconhecida pela qualidade e diversidade. O público podia assistir a manifestações que iam do Bumba-meu-boi maranhense às danças gaúchas, além de grupos vindos de países vizinhos e da Europa. Cada apresentação era um convite para conhecer histórias, ritmos e tradições que ajudaram a formar a identidade cultural brasileira.
O reconhecimento desse trabalho ultrapassou os limites de Barretos. Em 1969, Dr. Wilson foi eleito Folclorista do Ano pela Rádio Nacional de São Paulo, distinção que consagrou sua relevante contribuição para a valorização da cultura popular brasileira. Em Barretos, também recebeu reconhecimento público ao ser agraciado, em 1967, com o título “Gente que é Notícia”, concedido pelo jornal O Diário de Barretos.

Um dos episódios mais curiosos das Noitadas Folclóricas teve como protagonistas o então jovem Chico Buarque de Holanda e Toquinho. Segundo relato da família Palma da Rocha, Chico acabou se atrasando para sua apresentação, o que levou o coordenador do evento, Dr. Wilson, a reorganizar a programação e deixá-los para o encerramento da noite. A fotografia registra o instante em que Dr. Wilson dirige ao artista uma espécie de “bronca carinhosa”, com as mãos sobre seu rosto, numa cena que revela muito mais do que disciplina e zelo pela organização do espetáculo. A imagem evidencia também a proximidade que o folclorista mantinha com os artistas que passavam por Barretos. Com rara espontaneidade, o registro preserva um momento singular da história cultural da cidade: a ocasião em que um dos maiores nomes da música popular brasileira recebeu uma afetuosa repreensão nos bastidores das Noitadas, em nome do compromisso com o público que aguardava sua apresentação.
Hoje, as Noitadas Folclóricas pertencem à história da Festa do Peão de Barretos. A partir da década de 1980, o evento passou por profundas transformações, acompanhando uma tendência observada em grandes festividades do país: a ampliação dos espetáculos de grande público e a valorização crescente do rodeio como principal atração da programação. Nesse novo contexto, as apresentações folclóricas perderam gradativamente o espaço privilegiado que haviam ocupado nas décadas anteriores. Assim, aos poucos, elas deixaram de integrar a programação oficial, mas permanecem vivas na memória daqueles que tiveram a oportunidade de vivenciá-las.
Essas lembranças ocupam um lugar especial na memória afetiva da cidade. Para uma geração de barretenses, as Noitadas representaram mais do que um espetáculo. Foram momentos de encontro, aprendizado e celebração das raízes culturais do Brasil. Eram noites em que o folclore ocupava o centro da cena e mostrava, com cores, sons e movimentos, a diversidade e a riqueza da cultura popular.
Ao revisitar essa história, fica evidente a importância de Dr. Wilson Palma da Rocha para Barretos. Médico dedicado, cidadão respeitado, pesquisador incansável e defensor das tradições populares, ele ajudou a transformar as Noitadas Folclóricas em uma experiência inesquecível para milhares de pessoas. Seu legado permanece não apenas nos registros e homenagens, mas também na lembrança daqueles que viveram esse período marcante da Festa do Peão.
Por fim, registro meus mais sinceros agradecimentos à Dra. Elisa Palma da Rocha pela sensibilidade e generosidade na preservação de um valioso acervo documental sobre as Noitadas Folclóricas. Ao longo dos anos, esse rico material foi cuidadosamente guardado, tornando-se um importante testemunho de uma das mais significativas manifestações culturais da história da Festa do Peão de Barretos. Sua cessão para este registro histórico representa uma contribuição inestimável para a memória coletiva da cidade, permitindo que pesquisadores, estudiosos e futuras gerações tenham acesso ao legado cultural deixado pelo seu pai, Dr. Wilson.
As imagens a seguir ajudam a contar um pouco da rica trajetória das Noitadas Folclóricas, revelando momentos de convivência entre artistas, organizadores e o público que fez do evento um marco na vida cultural de Barretos. Mais do que simples registros fotográficos, elas preservam encontros, apresentações memoráveis e bastidores que evidenciam o papel de Dr. Wilson Palma da Rocha na construção de um espaço dedicado à valorização da música, do folclore e das manifestações populares. Cada fotografia constitui um fragmento dessa história, marcada pelo intercâmbio cultural, pela amizade e pelo compromisso com a difusão da cultura brasileira.

Registro de 1969. Da esquerda para a direita, o presidente de Os Independentes, Daniel Bampa Netto, Dr. Wilson Palma da Rocha, a Rainha da Festa, Ana Maria Marques de Oliveira, o cantor Jair Rodrigues e dois participantes não identificados.

Flâmula da Festa de 1969, na gestão de Daniel Bampa Netto. O destaque para a inscrição “Venha participar da maior Festa Folclórica do País” revela como, naquela época, o evento era amplamente identificado e promovido por sua forte vocação folclórica e cultural.

Registro da Festa do Peão de Barretos, 1968. Da esquerda para a direita, Roberto de Ávila Lima, presidente de Os Independentes. Ao centro (4º) Nivaldo Gomes, ao seu lado, encontra-se uma pessoa não identificada (5º). Em seguida, a Rainha Ana Rosa Scannavino (6ª), acompanhada pelo Dr. Wilson. Os demais participantes do registro não foram identificados.

Registro de uma das Noitadas Folclóricas da Festa do Peão de Barretos. Na imagem, aparecem os cantores Pedro Bento, Zé da Estrada, Celinho e Ramon Peres, conjunto que conquistou reconhecimento nacional oito vezes, além do Dr. Wilson. Além de sua destacada atuação na história da festa, Dr. Wilson também se dedicou à composição musical, tendo músicas gravadas por renomados intérpretes da música sertaneja, entre eles Pedro Bento e Zé da Estrada e a dupla Liu e Léo. Entre suas composições mais conhecidas está a rancheira “Tormento de Mulher”, gravada pelo grupo e consagrada como um grande sucesso da época.


