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Silvestre, Merenda e as Moderninhas: Vozes da Folia
- Por Sueli Fernandes
Hoje acordei com vontade de escrever sobre o carnaval. Não sabia bem por onde começar, até que o Facebook me trouxe uma lembrança em que fui marcada pelo meu saudoso confrade José Antônio Merenda: o bloco “As Moderninhas”. Bastou isso para que minha memória se abrisse como confete ao vento. Fragmentos da infância vieram à mente: eu e minha mãe na Avenida, aguardando ansiosamente o desfile da Estrela d’Oriente e, claro, permanecendo até o fim, porque só depois das Moderninhas é que a festa se encerrava.

As Moderninhas surgiram em 1970, em um contexto muito distinto do atual. Comerciantes, bancários, atores e figuras locais entregavam-se à folia, transformando a avenida em palco de humor e ousadia. Com roupas femininas emprestadas de mães, esposas e namoradas, improvisavam saias e vestidos; a maquiagem exagerada completava a caricatura. O resultado era um espetáculo de riso e fantasia, sem competição ou regulamentos, em contraste com a disciplina das escolas.
Naquele tempo, o travestimento masculino em trejeitos femininos era visto como brincadeira carnavalesca, arrancando gargalhadas do público. Hoje, porém, tais representações são lidas de forma crítica: muitas vezes reduzem a feminilidade a estereótipos e reforçam misoginia, sexismo e homofobia. O que antes se entendia como irreverência, hoje é reinterpretado à luz dos debates contemporâneos sobre respeito e igualdade.
Segundo o próprio Merenda, entre 1975 e 1980 desfilar nas Moderninhas era um verdadeiro privilégio. Ele encarnou com entusiasmo personagens como Isolda, Catarina Sapatova e até As Frenéticas. Para ele, vestir-se dessas figuras era experimentar a liberdade plena da festa: brincar com os limites da fantasia. Como ator dava vida a caricaturas irreverentes e, sobretudo, ria de si mesmo e dos outros — sem medo, sem censura, apenas entregue ao espírito do carnaval.

O saudoso Merenda foi uma figura singular: íntegro, afetuoso e sempre companheiro. Mesmo diante das disputas internas na Academia Barretense de Cultura, mantinha o respeito e a serenidade. Preferia o diálogo às rusgas, buscava somar em vez de dividir, e fazia da convivência um exercício constante de cordialidade.
Se voltarmos ainda mais no tempo, veremos que o carnaval brasileiro nasceu do entrudo, herança portuguesa que transformava as ruas do Rio em campos de batalha aquática. Limões-de-cheiro voavam, gamelas despejavam água, e moças tímidas se tornavam guerreiras implacáveis. Era considerado sujo e violento, mas irresistível: um ritual de inversão, onde a seriedade se dissolvia em gargalhadas.
Ainda no Rio de Janeiro, por volta de 1850, Zé Pereira introduziu tambores e bombos, marcando o momento em que a folia passou a ter música própria. A partir daí, multiplicaram-se cordões, ranchos e corsos, até que as escolas de samba se consolidaram como majestosas soberanas da avenida. Nesse ambiente efervescente viveu Silvestre de Lima, poeta e folião entre 1877 e 1884. Para ele, o carnaval não se limitava à celebração: era uma experiência de democracia popular. Nos versos satíricos dos Tenentes do Diabo, abordava a abolição, ironizava autoridades e elaborava uma filosofia disfarçada de pilhéria. Silvestre percebia na folia um instrumento de modernização social, um espaço em que o riso se transformava em arma contra injustiças. Seus versos alcançavam justamente aqueles que não liam jornais, mas que encontravam na festa uma forma de expressão e resistência. Em texto de 1882, o poeta afirmou que o carnaval era essencial para a “reconstrução da sociedade”, pois representava a “única manifestação artística” capaz de reunir todos os grupos sociais em um mesmo entendimento.
E se o Rio foi berço, Barretos também construiu sua tradição. Entrou no século XX com brincadeiras de jogar água, bolas de limão — pequenas esferas de cera cheias de perfume — e corsos, desfiles de carros enfeitados que percorriam as ruas ao redor da Praça Francisco Barreto, espalhando confetes e serpentinas. Bailes nos clubes e teatros completavam a festa.
O carnaval de 1923 foi animado, mas terminou em tragédia. Na madrugada da quarta-feira de cinzas, um incêndio destruiu o Cine Theatro Éden, localizado na rua 18, onde hoje funciona o Supermercado Tome e Leve. O episódio ganhou destaque na imprensa paulista, que registrou em detalhes o ocorrido. O Correio Paulistano, em sua edição nº 21.413, de fevereiro de 1923, noticiava:
“Manifestou-se hontem, pela manhã, na cidade de Barretos, um pavoroso incêndio, que destruiu completamente uma casa de diversões. Pelas seis horas foi pressentido fogo no interior do Theatro Éden, situado no centro da cidade. A essa hora as chamas já subiam alto, ameaçando os edifícios vizinhos.”
A notícia descrevia o esforço da polícia e de populares para conter as labaredas, mas, diante da falta de recursos, nada pôde evitar a destruição total do prédio. A população, consternada, acompanhou o trabalho devorador do fogo, e logo surgiram suspeitas de que o incêndio teria sido criminoso.

Na década de 1930, surgiu o bloco Carvão Nacional, organizado por Américo de Souza Espíndola. Os jornais da época registravam seus desfiles como espetáculos de música, coreografia e criatividade. Contudo, em meio ao brilho da festa, persistia o preconceito: os negros não eram bem recebidos nos salões frequentados por brancos. Foi essa exclusão que levou integrantes do Carvão Nacional a criar seu próprio espaço de convivência e alegria, dando origem ao clube Estrela D’Oriente, fundado em 1º de janeiro de 1936 por Lázaro Silva. Mais que lazer, a Sociedade Beneficente e Recreativa Estrela D’Oriente tornou-se um espaço de apoio social e afirmação cultural, símbolo de resistência na cidade.
Além da Estrela D’Oriente, marcaram época União, Grêmio, Jockey Club, Rio das Pedras, Unidos de Vila Marília e Imperadores do Samba, entre outros de vida breve. O cortejo pela Avenida 19, o palanque na Praça Francisco Barreto, os salões lotados — tudo isso compõe a memória de um carnaval que, seja no Rio ou em Barretos, sempre foi mais que festa. Foi resistência, foi crítica, foi alegria.
E assim, entre entrudos e moderninhas, entre Silvestre de Lima e José Antônio Merenda, o carnaval se revela como aquilo que sempre foi: o maior espetáculo da democracia brasileira, onde todos podem ser reis, rainhas ou simplesmente foliões.
Finalizo registrando meus sinceros agradecimentos à confreira Cacilda de Souza, viúva de Merenda, pela generosa autorização para o uso das imagens das Moderninhas neste texto, bem como ao fotógrafo Cornélio Junior, pela cessão da imagem do bloco Carvão Nacional.
