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O desarmamento da política em Barretos

 O desarmamento da política em Barretos
  • Por Sueli Fernandes

A história política de Barretos é também a história de uma cultura marcada pela presença ostensiva das armas. Durante décadas, revólveres, garruchas e facas fizeram parte não apenas do cotidiano da população, mas também dos embates travados no campo político. Nesse cenário, a decisão tomada pelo médico e vereador Matinas Suzuki, em 1970, de proibir que vereadores portassem armas no interior da Câmara Municipal representou mais do que uma medida administrativa: simbolizou um esforço de civilização da política local, ao estabelecer que os conflitos deveriam ser resolvidos pelo debate e não pela intimidação armada.

A trajetória de Matinas Suzuki é complexa e revela as contradições de seu tempo. Médico respeitado e político de orientação conservadora, ele recebeu o golpe de 1964 com a expectativa, compartilhada por muitos brasileiros, de que se tratava de uma intervenção breve e transitória, destinada a reorganizar a vida política do país e a restabelecer rapidamente a normalidade institucional por meio de eleições. Nesse contexto, manteve-se alinhado às forças que apoiaram a nova ordem instaurada após a deposição de João Goulart. Foi, inclusive, um dos signatários do requerimento que pedia a cassação dos vereadores Agnaldo Moreira e Mário Ferreira Pires, aprovado em sessão realizada em 13 de abril de 1964, já no processo de consolidação do regime autoritário. Sua atuação política, portanto, não pode ser analisada fora das tensões de uma época marcada pela supressão de direitos democráticos e pela perseguição de adversários políticos.

Matinas Suzuki. Fonte: Memórias de um vivente obscuro. Ed. Giordano, 1997.

Paradoxalmente, foi justamente Matinas quem protagonizou uma das medidas mais relevantes para a pacificação da vida legislativa barretense. Quando assumiu a presidência da Câmara Municipal, em 1970, seu primeiro ato foi a publicação da Portaria nº 01/1970, proibindo o ingresso e o porte de armas de fogo e armas brancas nas dependências da Casa de Leis. A norma determinava que sua violação configurava quebra de decoro parlamentar, sujeitando o infrator à abertura de processo de cassação de mandato e à comunicação do fato à Polícia Civil.

A medida não surgiu do acaso. Até então, a convivência política em Barretos era permeada por episódios de violência e pela permanente expectativa de que as discussões mais acaloradas pudessem terminar em tragédia. A história da cidade registra inúmeros confrontos motivados por disputas pessoais, econômicas e políticas. Em 1916, Francisco Itagyba, aliado de Silvestre de Lima, foi assassinado. Em 1926, dr. Mariano Dias foi assassinado, com três apunhaladas e dois tiros. Em 1936, Jerônymo Serafim Barcelos sofreu um atentado que lhe custou o baço. Em 1947, José Eduardo Oliveira de Menezes, proprietário do jornal Correio de Barretos, foi morto por Realindo Corrêa. Esses episódios revelam uma cultura em que a violência armada aparecia frequentemente como extensão das divergências políticas e sociais.

O próprio Matinas procurou explicar as origens desse ambiente. Segundo ele, Barretos consolidou-se como um dos grandes centros da pecuária de corte do país, especialmente no período em que enormes boiadas atravessavam o interior brasileiro em longas comitivas. A cidade recebia milhares de animais destinados ao frigorífico Anglo e concentrava centenas de peões boiadeiros, homens acostumados ao porte de armas de fogo e armas brancas. Em sua interpretação, essa realidade contribuiu para a naturalização do armamento na vida cotidiana local.

Embora verdadeira, essa explicação é apenas parcial. A presença generalizada de armas entre os brasileiros tem raízes muito mais profundas. Artigos da Agência Senado, trazem apontamentos do historiador Adilson José de Almeida, pesquisador do Museu do Ipiranga da Universidade de São Paulo, indicando que o armamento da população civil foi incentivado pelo próprio Estado brasileiro durante os períodos colonial e imperial. Sem recursos financeiros ou efetivos militares suficientes para garantir a defesa do território e a manutenção da ordem interna, o governo dependia de cidadãos armados, organizados em milícias e na Guarda Nacional.

Dessa forma, gerações de brasileiros cresceram aprendendo a manusear armas desde a infância. O problema é que o armamento destinado à defesa do Estado era frequentemente mobilizado em conflitos privados, disputas familiares e confrontos políticos. Não por acaso, em 1831 o Império aprovou legislação que criminalizava o uso sem licença de pistolas, bacamartes, punhais, facas de ponta e outros instrumentos perfurantes. Tratava-se de uma tentativa precoce de conter uma sociedade armada que muitas vezes escapava ao controle governamental.

Ao longo do século XIX e início do século XX, o Estado brasileiro continuou enfrentando esse dilema. Conflitos como Canudos e a Guerra do Contestado demonstraram que populações civis amplamente armadas podiam enfrentar o próprio Exército. Somente após a Revolução de 1930, Getúlio Vargas conseguiu enfraquecer o poder militar dos coronéis regionais e reforçar a autoridade federal. Contudo, como observa Adilson Almeida, o que se desarmou foi parte da estrutura política dos chefes locais; a cultura das armas permaneceu viva na sociedade brasileira.

Barretos constituiu um exemplo eloquente dessa permanência histórica. A própria necessidade da Portaria nº 01/1970 demonstra que o porte de armas dentro do recinto legislativo era visto como algo relativamente normal. Os relatos de Matinas Suzuki, registrados em sua obra Memória de um Vivente Obscuro, evidenciam o clima de permanente tensão que cercava as sessões.

Em uma ocasião, durante uma sessão particularmente acirrada que avançava pela madrugada, Matinas foi surpreendido pela chegada do médico Francolino Galvão. Intrigado pela presença do amigo em horário tão avançado, dirigiu-se a ele para indagar o motivo da visita. A resposta foi reveladora: acompanhando os debates pela Rádio Barretos, Francolino receara que algo grave pudesse acontecer e decidiu comparecer armado para proteger o presidente da Câmara. A cena demonstra como a possibilidade de violência era considerada real e iminente pelos próprios participantes da vida pública.

Outro episódio igualmente significativo envolveu os vereadores Nelson Abdala e Dionísio Pereira. Após uma áspera troca de acusações no plenário, Nelson deixou a Câmara abruptamente. O gesto provocou apreensão entre os demais parlamentares, alguns dos quais passaram a temer que ele tivesse ido buscar um revólver em casa. Quando regressou, batendo portas, caminhando pesadamente e exibindo expressão fechada, o clima tornou-se ainda mais tenso. Diante da situação, Matinas suspendeu sua participação direta na sessão e reuniu-se reservadamente com Nelson, Agostinho Pereira e Circe Bonatelli. Questionado sobre eventual porte de arma, Nelson respondeu de forma explosiva e bem-humorada que retornara para trocar suas sandálias por um sapato mais apropriado caso precisasse “dar um pontapé” no adversário político. O episódio terminou sem violência, mas ilustra o quanto a ameaça armada fazia parte do imaginário daqueles debates.

Sob uma perspectiva histórica, a iniciativa de Matinas Suzuki pode ser interpretada como um marco na institucionalização da política local. Ao afastar armas do espaço legislativo, a Câmara Municipal afirmava um princípio fundamental da democracia moderna: a legitimidade do argumento deve prevalecer sobre a força física. A política pressupõe o conflito, mas exige que ele seja mediado por regras, instituições e palavras.

Não se trata, contudo, de transformar Matinas em personagem unidimensional ou heroica. Sua trajetória está inserida em um contexto contraditório. O mesmo homem que contribuiu para o afastamento de opositores políticos durante os primeiros momentos da ditadura militar também foi responsável por reduzir os riscos de violência física dentro do parlamento municipal. Essa dualidade convida a uma reflexão mais ampla sobre a história política brasileira, frequentemente marcada pela convivência entre impulsos autoritários e iniciativas de fortalecimento institucional.

A Portaria nº 01/1970 não desarmou Barretos, tampouco eliminou a cultura da violência presente na sociedade brasileira. Entretanto, representou um passo importante para retirar as armas de um dos espaços mais simbólicos da vida pública. Ao fazê-lo, Matinas Suzuki ajudou a estabelecer que o mandato parlamentar deveria ser exercido pela persuasão, pelo voto e pelo debate, e não sob a sombra de revólveres e facas. Em uma cidade cuja história política conheceu assassinatos, atentados e intimidações, esse gesto adquiriu um significado que ultrapassa sua dimensão administrativa, tornando-se um capítulo relevante do processo de construção da civilidade democrática em Barretos.

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