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Hussein Gemha e a luta pela chegada da televisão a Barretos

 Hussein Gemha e a luta pela chegada da televisão a Barretos
  • Por Sueli Fernandes

Quando a televisão chegou a Barretos, em 1960, não foi apenas uma caixa iluminada que passou a ocupar espaço nas salas de estar. Sua chegada representou o desfecho de uma intensa disputa política, marcada por argumentos apaixonados, resistências e visões divergentes sobre o verdadeiro significado do progresso. A iniciativa era liderada por Hussein Gemha, então presidente da Associação Comercial e Industrial de Barretos (ACIB), e exigia um investimento de 1,5 milhão de cruzeiros, uma quantia expressiva para os padrões da época. Além do impacto financeiro, a própria televisão despertava desconfiança entre parte da população, sendo vista por alguns como uma ameaça aos bons costumes.

O projeto integrava uma iniciativa regional que reunia cidades como Bebedouro, Olímpia, Catanduva, São José do Rio Preto e Mirassol, todas empenhadas em garantir que a nova tecnologia alcançasse o interior paulista com qualidade suficiente para atender à população. A ACIB assumiria a maior parcela do investimento, contribuindo com 900 mil cruzeiros, enquanto os 600 mil restantes dependeriam da participação do município. Para viabilizar a proposta, Hussein Gemha solicitou a inclusão da verba no orçamento municipal e sugeriu, inclusive, um sistema de pagamento parcelado, distribuído entre os exercícios de 1960 e 1961, de forma a não comprometer os demais compromissos da administração pública.

A discussão, entretanto, ultrapassava a questão financeira. Com a introdução do sinal de televisão, Barretos passaria a experimentar uma nova forma de viver e de se relacionar. Até então, as noites da cidade eram marcadas pelos encontros nos clubes, pelas visitas a amigos e pelas sessões no Cine Barretos e no Cine Centenário. O rádio reinava absoluto, levando notícias, música e entretenimento a uma população que recebia as novidades do mundo em ritmo mais lento. A televisão transformaria profundamente esse cotidiano: as visitas tornaram-se menos frequentes, os jantares migraram para a frente da tela e o silêncio passou a substituir as conversas quando começavam as novelas e os programas de auditório.

Essa mudança cultural, porém, só se concretizou após uma verdadeira batalha política. O debate na Câmara Municipal foi intenso. De um lado, estavam os vereadores que enxergavam na televisão um símbolo de progresso, capaz de democratizar o acesso à informação, ampliar horizontes culturais e aproximar o interior das grandes transformações do país. De outro, aqueles que consideravam inadequado destinar recursos públicos a um empreendimento visto como supérfluo diante de outras necessidades da cidade. O embate refletia, na realidade, uma disputa mais profunda sobre prioridades administrativas, desenvolvimento e modernização.

Ao defender a proposta, Hussein Gemha apresentou uma comparação ao mesmo tempo curiosa e perspicaz. Segundo ele, a televisão deveria ser analisada da mesma forma que o álcool: ambos poderiam prestar serviços inestimáveis à humanidade, mas também causar prejuízos quando utilizados de maneira inadequada. Não eram bons nem maus em si mesmos; seus efeitos dependeriam da forma como fossem empregados pela sociedade. Com esse argumento, Gemha deslocava a discussão do plano puramente financeiro — especialmente porque a ACIB assumiria a maior parte do investimento — para uma dimensão ética e cultural. Sua defesa ressaltava que toda inovação exige responsabilidade coletiva e que Barretos não podia permanecer alheia ao progresso. Além disso, destacava que a implantação do sinal de televisão impulsionaria novas atividades econômicas e oportunidades comerciais na cidade.

Hussein Gemha, 1960.    Acervo: Mesquita de Barretos.

O parecer favorável do vereador Ruy Menezes foi decisivo para o avanço do projeto. Em sua manifestação, ele destacou que a televisão representava não apenas um sinal de modernidade, mas também um instrumento de difusão cultural e de entretenimento saudável, capaz de reunir famílias e alcançar diferentes camadas sociais. Naquele período, era comum que aparelhos de televisão fossem instalados em locais de grande circulação, permitindo que mesmo aqueles que não possuíam um televisor em casa tivessem acesso à nova tecnologia.

Ainda assim, a aprovação esteve longe de ser consensual. Cada voto carregava o peso de uma escolha entre tradição e modernidade, entre a preservação dos hábitos estabelecidos e a aposta em um futuro transformador. Ao final, prevaleceu a visão progressista. Em 26 de abril de 1960, o prefeito Christiano Carvalho sancionou a Lei nº 743, viabilizando a participação do município no empreendimento. Pouco depois, Barretos passou a receber o sinal da TV Tupi, Canal 4. A conquista foi política antes de ser técnica: a televisão chegou à cidade como resultado de uma disputa parlamentar que redefiniu prioridades e alterou de forma permanente os hábitos culturais da população.

Mais de seis décadas depois, a reflexão proposta por Hussein Gemha continua surpreendentemente atual. O aspecto mais fascinante dessa história talvez não seja a própria evolução tecnológica, mas a permanência das questões que ela levantou. Ao comparar a televisão ao álcool, Gemha defendia que o valor de uma tecnologia não reside no objeto em si, mas na forma como a sociedade escolhe utilizá-lo.

Hoje, quando debatemos os impactos da internet, das redes sociais e da inteligência artificial, voltamos a discutir, em essência, a mesma questão: não é a tecnologia que determina seu efeito sobre a sociedade, mas o uso que fazemos dela. A história da chegada da televisão a Barretos mostra que os grandes debates sobre inovação, progresso e responsabilidade coletiva são muito menos sobre máquinas e muito mais sobre escolhas humanas.

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