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A modernização da morte em Barretos

 A modernização da morte em Barretos
  • Por Sueli Fernandes

Em 1913, Barretos respirava modernidade, mas não apenas nos espaços da vida. Enquanto inaugurava o primeiro frigorífico do país, símbolo de progresso e higienização, a cidade dava um passo igualmente revelador: passava a regulamentar a morte.

Naquele ano, a Câmara Municipal aprovou o requerimento de Antônio Flosi, concedendo-lhe, por quinze anos, o privilégio exclusivo dos serviços funerários. Nascia, assim, não apenas uma empresa, mas uma nova forma de intervir nos rituais de despedida. Até então, os mortos pertenciam à casa: eram velados, cuidados e despedidos no espaço íntimo da família e da comunidade. Com a regulamentação, esse universo não desaparecia, mas passava a ser atravessado por uma nova presença: a do serviço funerário, agora contratado e fiscalizado, que assumia etapas específicas, sobretudo ligadas ao transporte, ao fornecimento de caixões, ornamentos, coroas e à organização material do enterro.

As despedidas continuavam ancoradas nos vínculos afetivos e no ambiente doméstico, mas passavam a incorporar práticas regulamentadas, alinhadas aos ideais de civilidade que se buscava instaurar. A morte, embora ainda vivida entre as paredes da casa, tornava-se também um assunto público: organizada, tarifada e submetida à vigilância do poder municipal.

Como parte do acordo, a Prefeitura cedeu o terreno para a construção da empresa funerária, impondo exigências precisas. O prédio deveria abrigar uma sala de sete por cinco metros destinada ao depósito de cadáveres, espaço que também seria cedido gratuitamente para indigentes. Em contrapartida, a empresa era obrigada a fornecer transporte e caixão de quarta classe, ainda que apenas para conduzir o corpo até o cemitério — sendo o caixão devolvido ao final do trajeto.

O contrato ia além: estabelecia uma tabela rigorosa que dividia a morte em quatro classes.

Na primeira, o luxo se impunha até o último gesto: um caixão de madeira revestido de veludo, com tampa forrada em cetim branco ou roxo, véus rendados, travesseiro ornamentado, seis argolas amarelas e cadeado. A chave, cuidadosamente envolta em laços de fita, era entregue à família. O corpo seguia, então, em uma carruagem preta de quatro rodas, com interior adornado com cortinas de veludo e estrutura ornada por oito colunas e entalhes dourados, puxada por dois animais e conduzida por um cocheiro também vestido de preto, um cortejo que elevava a despedida à condição de espetáculo silencioso. Aos olhos de hoje, quase uma cena de cinema. 

Como exemplo desse tipo de ornamentação, observa-se, ao lado, uma imagem ilustrativa de uma carruagem utilizada no transporte fúnebre na cidade de Pelotas, Rio Grande do Sul. Destacam-se as oito colunas, as cortinas de veludo e os ricos entalhes na madeira, elementos que conferem imponência e refinamento ao carro.

Nas classes seguintes, o luxo se desfazia gradualmente: simplificavam-se os materiais, o veludo era substituído por tecidos menos nobres, os ornamentos tornavam-se mais singelos e a solenidade, aos poucos, perdia a pompa. Até chegar à quarta classe, onde restava apenas o essencial: um caixão emprestado e uma carrocinha preta, identificada pelo nome da funerária.

Nem mesmo as crianças escapavam à classificação. Chamadas de “anjos”, envoltas em significado religioso, também eram divididas em quatro categorias, com diferenças de qualidade e ornamento, tanto nos caixões quanto nos veículos, como se o breve tempo de vida não bastasse para igualá-las na despedida. Nesses cortejos, o carro fúnebre apresentava-se em cor clara, ornamentado em dourado, mas, à medida que se descia na escala social, também ele perdia adornos, brilho e distinção.

Esse sistema simbólico pode ser observado também nos exemplares preservados, como os que aparecem na imagem: dois exemplos de carruagens fúnebres — uma carruagem preta, associada ao transporte de adultos, e outra em branco, tradicionalmente ligada à pureza e ao transporte de crianças. Essas peças pertencem à cidade de Pelotas, no Rio Grande do Sul, onde são conhecidas como Carruagem Nobre (de cor escura) e Carruagem dos Anjinhos (branca). Ambas integram o patrimônio histórico local e foram registradas por Paulo Rossi durante os trabalhos de estudo e restauração realizados pelo Instituto de Ciências Humanas da UFPel.

Outra curiosidade no contrato entre prefeitura e empresário revela uma brecha significativa quanto à elite local: mesmo a primeira classe podia ser insuficiente. Aqueles que desejassem mais luxo poderiam negociar diretamente com o concessionário, ultrapassando os limites da tabela. Na morte, como na vida, o padrão podia ser superado, desde que pago.

A modernização vinha acompanhada de rigor. Flosi tinha três meses para estruturar o serviço. Atrasos superiores a uma hora no enterro, ausência de transporte ou falta do caixão solicitado resultariam em multas. Mas talvez mais significativo fosse outro tipo de punição: aqueles que insistissem em enterrar seus mortos por meios próprios, redes ou caixões produzidos por carpinteiros locais, também seriam penalizados. As multas, curiosamente, eram divididas: metade para a Prefeitura, metade para a empresa funerária.

A proibição de conduzir cadáveres em redes ou envoltórios improvisados revela muito mais do que uma medida sanitária. Expõe um momento de tensão: práticas antigas, domésticas e comunitárias, passam a ser gradualmente desestimuladas. A multa — equivalente ao custo da quarta classe — não apenas punia, mas inviabilizava alternativas. Até quem ajudasse a carregar uma rede poderia ser penalizado.

Assim, pouco a pouco, a cidade passava a reconfigurar seus rituais mais íntimos. Entre frigoríficos e funerárias, entre o progresso industrial e a regulamentação de partes dos ritos fúnebres, Barretos se afirmava como moderna, não apenas na forma de tratar a vida, mas também na maneira de organizar a morte.

No fim, permanecia uma ironia silenciosa: se a morte é universal em sua chegada, em Barretos ela se tornava profundamente desigual em sua partida, espelhando, até o último instante, as hierarquias sociais que estruturavam a cidade que desejava ser moderna até no silêncio de seus cemitérios.

Fonte das imagens utilizadas: https://pelotascultural.blogspot.com/2012/05/carruagens-funebres-em-restauracao.html

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