Taverna do CLT: o ‘Fôlego geracional’ que une juventude e resiste em Barretos
Em um cenário onde a juventude muitas vezes se vê à margem, buscando espaços para respirar e se expressar, surge um fenômeno crucial: o “fôlego geracional”. Recentemente, em Barretos, esse sopro de vida encontrou seu lar na Taverna do CLT, um bar na Rua Vinte que transcendeu a mera função de ponto de encontro. Ele se tornou um catalisador de conexão, unindo diversas tribos de jovens adultos de uma forma harmoniosa e pulsante, algo pouco visto na cidade nos últimos tempos.
A estância turística de Barretos, apesar do título, contrasta com uma realidade de ruas nem sempre vibrantes e a escassez de eventos populares. A intensa presença policial nas vias, por vezes, inibe reuniões espontâneas, levando a juventude a sentir-se sem um lugar de pertencimento. Enquanto a paisagem da cidade é dominada por estabelecimentos familiares, pouco receptivos aos interesses juvenis, ou adegas que incentivam o consumo isolado nas calçadas, a chegada da Taverna do CLT representou um abraço, um contraponto aos empreendimentos mais tradicionais.

Contudo, uma casa cheia, por si só, não eleva um local ao patamar de “fôlego geracional”. É preciso transcender alguns marcos, como explica o folclorista Santo Desatino (F. Diogo). “Quando você olha para as gerações passadas e para a cidade onde elas viveram, sempre vai ter aquele lugar onde ‘a vida’ de toda a geração em seus 20-30 anos aconteceu”, pontua Santo Desatino. Ele descreve como cidades, muitas vezes construídas por e para adultos, limitam a expressão juvenil em bares, ruas e festas. Nesse contexto, a Taverna do CLT se encaixa perfeitamente na definição do folclorista.
Para Lucas de Paula Pereira Filho, membro da autodenominada “Legião do Mal” e frequentador assíduo, a chegada da Taverna do CLT preencheu um vazio palpável. “Antes do bar surgir, nossos ‘rolês’ aconteciam em casa, em praças, ou em alguns eventos, mas as tribos não se misturavam e se uniam”, recorda Lucas. Ele enfatiza também sua admiração pela oposição política do bar, que vai contra os valores tradicionais da cidade, reforçando o papel do local como um ponto de confluência e resistência. Para Santo Desatino, “esse é o estopim de um ‘estouro’, um lugar rapidamente popular, sempre cheio, que os frequentadores nunca querem que feche, que dá uma nova vida na cidade para a juventude que estava espalhada e sem conexões antes por lá.” É o verdadeiro “fôlego” no sufocamento de uma necessidade vital por espaços que se conectem com os jovens.



Mas o papel da Taverna do CLT vai além do social. Profundamente envolvida com a cultura e a política, a Taverna se tornou um ponto de união e, notavelmente, de resistência. Em uma cidade frequentemente descrita como conservadora, o bar abrigou a fundação de uma frente de esquerda, promovendo eventos com figuras políticas influentes como Leonardo Grandini (PSOL). Além do ativismo político, o espaço serve de vitrine para a arte local, recebendo bandas e artistas da região, e amplificando vozes das resistências antirracistas, feministas e pró-LGBTQIA+. É nesse caldeirão de ideias e expressões que a juventude encontra não apenas um bar, mas um porto seguro para ser e se manifestar plenamente.

O espaço físico da Taverna do CLT, embora pequeno e aconchegante, pulsa com uma energia contagiante. Antes de se tornar o que é hoje, o ponto já abrigava um bar, mas a mudança de direção trouxe uma nova alma ao local. As paredes, agora, são telas de expressão: uma delas, inclusive, foi dedicada para que os frequentadores deixem suas marcas com giz, escrevendo nomes ou mensagens, transformando o próprio bar em um mural coletivo de memórias. A vitalidade do lugar é tanta que, frequentemente, a animação transborda, com os jovens ocupando as calçadas ao redor, em conversas e celebrações que estendem o ambiente acolhedor da Taverna para a própria Rua Vinte.


No entanto, nem tudo são flores no florescer desse “fôlego geracional”. A popularidade e o barulho natural de um ponto de encontro tão vibrante, especialmente quando a juventude ocupa as calçadas, por vezes geram atritos. Já houve reclamações de vizinhos à polícia, um reflexo dos desafios inerentes à coexistência entre um espaço de efervescência juvenil e a tranquilidade residencial. Essa tensão ressalta o impacto profundo que a Taverna do CLT tem na dinâmica social e urbana de Barretos, evidenciando que a liberdade e a autoexpressão da juventude podem, em alguns momentos, colidir com as normativas e expectativas de uma cidade que, como apontou Santo Desatino, muitas vezes foi “construída para os adultos”.

Bilhete deixado debaixo da porta. (Foto: L. R. Sautchuk)
A Taverna do CLT, em Barretos, prova que um espaço físico pode ser muito mais que paredes e balcões; pode ser a tela onde uma geração pinta suas cores mais vibrantes e respira seu fôlego mais genuíno, perpetuando memórias que desafiam o tempo e, acima de tudo, fornecendo o sopro vital para uma juventude que anseia por pertencer e se expressar.
