22 de Outubro de 2017 às 16:55Aquino José

O trabalho e a greve das mulheres no Frigorífico Anglo


Trabalhadoras do Frigorifico Anglo na década de 1930 e 1940. (Foto Acervo do Museu Ruy Menezes)

Entre 1927 e 1935 as mulheres representavam quase 20% da mão-de-obra utilizada no Frigorífico Anglo. A empresa empregava em média 2 mil pessoas. Os dados foram levantados pela historiadora Célia Aiélo, já falecida.

A maioria das mulheres reproduzia no espaço da fábrica sua experiência do lar: 60% se dedicavam ao setor de conservas que exigia habilidades domésticas, como cortar e cozinhar carnes e legumes. Além de trabalhar no escritório, também era possível encontrá-las na desossa, departamento posterior à matança, onde exigia-se habilidade, resistência e uma certa força física, dada a velocidade e precisão dos movimentos. A tarefas eram separadas por departamentos. O trânsito e as conversas dentro da fábrica eram proibidos.

Nos primeiros anos da década de 1930, a mão-de-obra feminina utilizada na indústria frigorífica era predominantemente nativa. Com a vinda de imigrantes, as estrangeiras começaram a ocupar seções antes dominadas por brasileiras. Segundo Irineu Moraes, no livro “Lutas Camponesas no Interior”, as operárias estrangeiras concordavam em receber menor salário, episódio que gerou a primeira greve no frigorífico em mãos dos ingleses.

A empresa utilizava-se preferencialmente de jovens que eram substituídas quando se casavam. As mulheres na indústria de Barretos se enquadravam em grande parte na faixa entre 15 e 18 anos. Normalmente eram solteiras, muitas filhas de imigrantes.

Nesta época, as mulheres ganhavam metade do salário pago aos homens. Os lugares que trabalhavam eram insalubres. As trabalhadoras permaneciam o dia todo com os pés na umidade, circulando também no vapor do cozimento dos produtos, sujeitas a acidentes constantes ocorridos nas máquinas.

Dona Maria, entrevistada por Célia Aiélo, contou que na década de 1950, as mulheres resolveram fazer uma greve. Desligaram a bomba de água que abastecia a fábrica e as casas dos ingleses. Depois, fizeram um cordão em volta. Não permitiram a entrada dos bombeiros para religar a bomba.

Relatou também que a polícia ameaçou jogar bombas nas mulheres. Queria que elas retirassem as crianças que se encontravam na fábrica.  Contudo, elas foram buscar os filhos que tinha ficado em casa. E disseram: “se vamos morrer, morreremos todos juntos”.

As formas de protestos dos trabalhadores, independente de sexo, no Frigorífico Anglo de Barretos representavam uma contestação à situação em que se encontravam, bem como, estratégias de resistência e luta, avaliou a historiadora Célia Aiélo em seu trabalho acadêmico.


A historiadora Célia Aiélo desenvolveu trabalho acadêmico sobre os trabalhadores do Frigorífico Anglo. (Foto: Aquino José)


Publicidade

Fale com a gente pelo e-mail

contato@jornalosertanejo.com.br
Participe com sugestões, dicas, comentários e denúncias.

Enquete

Resultados

Podcasts

Publicidade
Publicidade