07 de Outubro de 2017 às 09:32Aquino José

As façanhas do comissário José Caetano


Comissário José Caetano apresentou polaco que restou de sua tropa. (Foto: Aquino José)

Um retrato preto e branco de 1948, onde aparecia montado em um burro ao lado da Matriz do Divino Espírito Santo; espora, relho, pelego, raspadeira de animal, um polaco – sino ficava dependurado no pescoço do madrinheiro (animal que ia a frente dos demais), e muitas lembranças foi o que restou ao velho boiadeiro. Aos 90 anos de idade, 5 filhos, 9 netos e 9 bisnetos, o aposentado José Caetano Sobrinho, morava na Vila Rios, sentia saudades dos “bons tempos” que viajava. Amparado por duas bengalas por causa de desgaste no joelho, ele apreciava uma boa prosa na varanda de sua casa.

Mineiro de Delfinópolis, onde trabalhava com gado leiteiro numa fazenda, ele veio para Barretos em 1946, a convite de Laurindo Vinhas. Sua função era conduzir boiadas por todo o canto. A primeira viagem foi impactante. O comissário contratou 12 peões, arrumou 40 burros e arranjou 8 cargueiros para buscar uma boiada de 1.253 bois numa propriedade localizada na região do Bico do Papagaio, em Goiás (hoje localizada no Estado de Tocantins) entre o Maranhão e o Pará. Só de ida foram três meses. A manada foi trazida para Barretos a fim de engordar nas invernadas para ganhar peso e depois ser abatida nos frigoríficos da cidade.

As viagens eram constantes. Quando o primeiro patrão parou com a atividade, José Caetano foi trabalhar com o fazendeiro Nemércio Lemos. Quando este também abandonou o ofício, o peão comprou a tropa e passou a atuar por conta própria. Foi em 1950, ano em que se casou.


José Caetano Sobrinho mostrou sua foto em 1948. (Foto: Aquino José)

José Caetano recordava que em sua carreira aconteceu apenas um estouro de boiada. Estavam perto de Araçatuba (SP) e a jornada era tranquila. Os bois seguiam sossegados. De repente, no meio de um cafezal, surgiu um trem. A manada se assustou com o barulho da locomotiva e passou a correr sem controle e sem direção. A cerquinha era fraca e não aguentou a pressão dos animais. Todos fugiram. E deu um trabalho danado recolher a bicharada. Cinquenta foram encontrados no outro dia. Não ficou nenhum para trás, de arribada. Eram 800 bois que seguiam pelo estradão.

Depois de muitas jornadas, em 1958, o tropeiro decidiu parar. Embora gostasse da lida, com o início das atividades dos caminhões boiadeiros, ele não quis aderir a modernidade e comprar um veículo. Largou a vida errante, vendeu a tralha e foi trabalhar numa fazenda. Lá ficou 22 anos. Depois que a propriedade foi vendida, retornou à cidade e se tornou funcionário municipal.  Trabalhou no SAAEB (Serviço Autônomo de Água e Esgoto de Barretos). Em 2001, se aposentou definitivamente.

Há alguns uns anos, José Caetano foi homenageado pela Associação Os Independentes em cerimônia realizada no Ponto de Pouso, durante uma Queima do Alho, no Parque do Peão. Passado um tempo, ele não foi mais ao evento por causa de dificuldade de locomoção. Mas estava sempre atento aos acontecimentos.

José Caetano disse que estava realizado na vida, pois completou sua missão como peão de boiadeiro. Ele faleceu a pouco tempo.

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