30 de Setembro de 2017 às 11:14Aquino José

A repressão aos trabalhadores do Frigorífico


Frigorífico no início de suas atividades.

O Frigorífico Anglo além de um local de exploração do capital sobre o trabalho, também se tornou um espaço onde agiam os aparelhos de repressão do Estado. No passado, empresário e governo se uniram para “disciplinar” os trabalhadores na indústria frigorífica. Essa foi uma das conclusões da professora Célia Aiélo, já falecida, que estudou o perfil dos operários da empresa em Barretos, no período de 1927 a 1935. A dissertação de mestrado foi apresentada ao Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da UNICAMP (Universidade de Campinas), estando à disposição dos interessados na biblioteca virtual da universidade.

A partir de 1927, 40% dos trabalhadores da indústria eram de diferentes etnias, como lituanos, portugueses, alemães, iugoslavos, sírios e italianos. A contratação era feita nos portões da fábrica, sem exigência de muita qualificação. Havia grande rotatividade de mão-de-obra. Apenas aos grevistas não era dada a possibilidade de retorno. Existia um controle e uma intensa disciplinarização dos operários, conforme demonstra correspondências a partir de 1932 entre a diretoria da S/A Frigorífico Anglo e o Delegado de Polícia Política, localizadas pela pesquisadora no Arquivo do Estado.

Irineu Morais, em seu livro de memórias, relata que o medo dos trabalhadores brasileiros serem substituídos por estrangeiros pode ser uma das causas da greve de 1931. A organização do movimento foi rápida. Os operários pararam ainda na madrugada de 22 de janeiro. Houve piquetes. A polícia local não conseguiu controlar a confusão entre trabalhadores. Com a chegada de reforços de cidades vizinhas, aconteceu muita violência e espancamento. O saldo do confronto apontou feridos e presos. Segundo o jornal da época, A Semana, a pauta de reivindicações dos grevistas exigia aumento de salários, 8 horas de trabalho diário e remuneração extra pelo serviço noturno. A queixa era que no último ano os salários foram reduzidos de Rs 100$ (Cem Réis) por hora.

Em janeiro de 1931, quatro operários do Frigorífico Anglo foram enviados ao Departamento do Trabalho para negociar as reivindicações. Na chefia da comissão estava José Eugênio de Carvalho, então chefe da Legião Revolucionária do Frigorífico. Por causa de sua liderança ele foi demitido. O delegado de polícia da época, Hugo Ribeiro da Silva, argumentou que o trabalhador era uma pessoa pacífica e questionou a postura do então gerente geral Mr. Cunningham em despedir os envolvidos na greve. Cópias das fichas de registro dos operários foram enviadas ao DEOPS (Delegacia Especializada de Ordem Política e Social) pelo próprio Frigorífico na pessoa do superintendente A.M. Moore.

Naquele tempo havia uma preocupação da polícia política com a “União Operária Camponesa do Brasil”. Barretos é citada como local dessas organizações, a exemplo de outras cidades como Campinas, Ribeirão Preto e Bauru. Em 1934, depois de uma ameaça de greve, o Frigorífico atendeu pedidos do Sindicato, dando 30% de aumento sobre as horas extras e Rs 1$000 (Um Mil Réis) como pagamento mínimo por hora. A empresa cedeu 10% e Rs 800$ (Oitocentos Réis) por hora, além de definir de um novo ponto na linha do trem a fim de facilitar a chegada dos operários.

Neste período, o DEOPS investigava a direção do Sindicato dos Operários do Frigorífico e do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias de Construção e do Mobiliário de Barretos, que foi fechado por envolvimento com comunistas. A polícia política catalogou em março de 1948, as seguintes células comunistas em Barretos: Siqueira Campos, Benedito Martins (ferroviários), Tiradentes (Vila Baroni), Olga Benário Prestes, 25 de Março (Vila Melo), Frigorífico, Leocádia Prestes e Frei Caneca (ambas no Bairro Fortaleza).