26 de Agosto de 2017 às 09:20Aquino José

Gentil morava com Deus, as galinhas e o cão


Criar galinhas em casa é costume antigo. (Foto: Aquino José)

-- Quem mora nesta casa?

Numa tarde de agosto de 1997, o aposentado Gentil Prata, pai do misto de cozinheiro e berranteiro Adelino Prata, o Sarará, respondeu assim a pergunta do repórter:

-- Eu, Deus, as galinhas e o cão.

Naquela época, aos 84 anos, o velho comissário de comitivas boiadeiras residia na rua 38, entre as avenidas 31 e 33, na Vila Baroni. Morava em Barretos desde 1953. Do signo de touro, ele nasceu em São Francisco de Sales, MG, filho de José Prata e Maria Francisca Prata.,

Durante mais de 40 anos Gentil Prata foi comissário de comitiva. Cuidadoso, escolhia “a dedo” os seus contratados para transportar boiada pelos rincões brasileiros. Havia muito peão “amolante”, que gostava de confusão, encrenqueiro, enjoado, reclamador, queixoso de tudo....

-- “Se o cozinheiro lhe oferecia uma canequinha de pinga, ele queria duas. Se dava duas, pedia três. Recebia três, desejava a garrafa....”

Vindo de Minas Gerais, o comissário mudou-se para Paulo de Faria, SP, em 1933. Naquela época, trabalhava como peão, mas aos poucos foi comprando uns “burrinhos” até formar sua própria comitiva. Buscava gado no centro oeste, trazendo-o para “engorda” em Icem, SP, onde havia muita invernada. Depois, os animais seguiam para Barretos, onde eram abatidos no frigorífico Anglo, nas charqueadas Minerva e Bandeirante.

Gentil Prata contou que cerca ocasião vinha trazendo uma boiada de Rondonópolis, MT, para Riolândia, SP. Eram 1.200 cabeças de propriedade de Fiíco Ribeiro, pai do ex-prefeito barretense Ari Ribeiro de Mendonça. Na culatra (final da boiada) estavam Belmirão e Santo. No trajeto, se desentenderam. Um peão não conversava com o outro. Estavam de mal. O pouso tinha acontecido na currutela (vilarejo menor que cidade) de Santo Antônio, perto de Três Lagoas, MS. A certa altura da marcha, enquanto o comissário contava os bois, Santo resolveu ir até Belmirão. Sentindo-se provocado, o culatreiro esbravejou:

-- “Aonde ocê vai, nêgo sem-vergonha, fio da puta???”

-- “Fio da puta é ocê!”

Foi o que respondeu Santo, imediatamente.

-- “Entonce ocê não vai mais pro Barreto. Eu vô ti matá, disgraçado!...”,

Assim que gritou, Belmirão partiu para cima de Santo. Amarelado, ele pisou quente, meteu a espora na mula, que escoiceava. O animal passou perto de um precipício, desbarrancando-o.

-- “Se cai lá em baixo, morre na certa!”

Advertiu com firmeza, Gentil Prata.

Porém, o fujão conseguiu bater em retirada, escapando de seu perseguidor. E a viagem continuou, sem os dois trocarem palavra ou olhar. Entregue a boiada, o comissário pagou-os em Barretos. No outro dia, encontrou os dois juntos, bebendo cerveja no Café Goiano. Amizade refeita...

O Café Goiano, no alto da rua 28, em Barretos, era tradicional ponto de encontro de peões. Ali os comissários contratavam seus ajudantes. Os peões atraíam o mulherio e vice-versa. O que ganhavam no estradão gastavam na farra com “as primas” e a cachaça. Neste ambiente, ocorriam algumas brigas. Assim morreu Belmirão, contou Gentil Prata:

-- “Dois cunhados estavam tomando cerveja e começaram a discutir. Belmirão interveio: -- Mas que homens sem-vergonha, gente! São parentes e brigam por cachaça...”

-- “Um dos sujeitos não gostou da interferência. Sacou de um revolver e disparou três tiros contra a cabeça de Belmirão. Matou meu cozinheiro e companheiro de viagem”.

Assim lembrou Gentil Prata.

-- “Brincalhão, meu amigo bebia, mas era inofensivo. O crime ficou gravado na minha memória”.

Depois da confissão, o comissário recordou que certa ocasião trazia cerca de 1.200 bois para Barretos. Antenor Duarte, avô de Henrique Prata, era o dono do rebanho. Na Volta Grande, Minas Gerais, entre Guaíra e Uberaba, a boiada estourou. Foram 5 dias para reunir a manada. E ainda ficaram 8 cabeças de arribada (para trás), conduzidas posteriormente ao seu destino. O fato fez com que Gentil Prata comentasse:

-- “Nestas ocasiões, o peão assusta, sente medo e vê o perigo de perto”.

Na opinião de Gentil Prata, berranteiro bom atrapalha a condução da boiada:

--“Peão boiadeiro tem suas manhas. Quando chega nas vilas, currutelas, patrimônios e cidades, ele começa a florear no berrante para chamar a atenção dos moradores. O povo ajunta e espanta a boiada”.

-- “O Alceu Garcia me fez muita raiva”.

Referiu-se sorrindo a respeito do berranteiro que  ganhou 38 títulos no concurso de berrante em Barretos.

Ao afirmar que “baile no mato é mais gostoso”, Gentil Prata confessou seu gosto por um pagode, onde “agarrava nas escadeiras da Maria”.

Ressaltou, entretanto, que “hoje acabou.... nem no sonho!...” E confirmou a fama de que peão de boiadeiro é mulherengo, com muito “rolo” pelos lugares onde passa. Sério, garantiu que como comissário sempre procurou se afastar das “oportunidades” para não dar mal exemplo.

Nascido em 5 de maio de 1913, Gentil Prata já se foi....

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