17 de Junho de 2017 às 10:36Aquino José

Assassinato de padre gera protesto e clima tenso em Barretos


Caminhada de protesto passou pela rua 20, entre avenidas 15 e 17. (Aquino José)

Aos poucos as pessoas foram se juntando na Praça Francisco Barreto. Eram militantes do PT, PCB, CUT, Associação dos Comerciários, Sindicato dos Trabalhadores Rurais, padres, religiosas, populares. Começaram a organizar a passeata. O Capitão Rubens Martins Lopes, da Polícia Militar, esteve no local antes da caminhada e conversou com Ronaldo Marques, na época presidente do PT.

Por volta das 17h00 de 23 de maio de 1986, a passeata saiu defronte a Catedral do Divino Espírito Santo, desceu a rua 18, virou a avenida 15 e subiu a rua 20. Havia um clima de tensão no ar. Os manifestantes carregavam faixa em favor da reforma agrária imediata e cartazes pedindo o fim da impunidade no campo. Uma médica levava uma cruz de madeira com um cartaz colado, com os seguintes dizeres: “Os latifundiários assassinaram o padre Josimo”. O cortejo tinha à frente uma faixa que dizia: “Sangue de mártires é semente de novos cristãos”.

O protesto aconteceu em virtude do assassinato do padre Josimo Tavares, 33 anos, no dia 10 de maio de 1986, em Imperatriz, Maranhão, quando ele subia as escadas do prédio onde funcionava o escritório da CPT (Comissão Pastoral da Terra). A partir de então, o sacerdote é considerado um dos mártires da reforma agrária. Em 15 de abril do mesmo ano ele já havia sofrido um atentado. A morte do padre teve repercussão internacional e a Rádio do Vaticano dedicou editorial elogiando o trabalho do presbítero.

Depois de uma volta pelas ruas e avenidas do centro de Barretos, os manifestantes retornaram à frente da Catedral. Ali, padre Deusmar Jesus da Silva, fez um discurso enfático. Condenou a violência no campo e a impunidade dos assassinatos cometidos contra os trabalhadores rurais e todos aqueles que assumem a luta pela Reforma Agrária em nosso país.  Até aquele dia, 115 trabalhadores rurais haviam sido mortos por jagunços contratados pelos grandes proprietários de terras, segundo a CPT. As vítimas mais recentes eram o Padre Josimo Tavares, o agente de pastoral Josael Lima e o pastor batista José Inácio Filho.

Padre Deusmar Jesus da Silva criticou os latifundiários que através de organizações como a sociedade TFP (Tradição Família e Propriedade) e a UDR ( União Democrática Ruralista) estariam formando milícias para matar os trabalhadores rurais. “Os que não constroem a paz estão construindo a própria sepultura”, disse o sacerdote.

O calendário assinalava 10 de março de 1986, quando no programa “A Voz do Pastor”, na Rádio Independente AM, o bispo Dom Antônio Maria Mucciolo lamentou a atitude de represália tomada na diocese por agropecuaristas que cortaram o auxílio que davam às obras assistenciais de Barretos por causa do tema da Campanha da Fraternidade “Terra de Deus, Terra de Irmãos”. O bispo pediu que eles fizessem “um exame de consciência”. Na mesma semana, o pastor sustentou que a Igreja não apoia invasão de terras, nem combates. “Isto não é cristão”, disse. No mesmo programa e emissora de rádio, no dia 19 de maio, o bispo condenou o assassinato de padre Josimo Tavares.

Na edição de  14 de maio de 1986, o jornal O Diário destacava preocupação do padre André Bortolameotti com referência a morte do padre Josimo. O sacerdote da paróquia Nossa Senhora do Rosário criticou também as “milícias particulares”, segundo a publicação.

No dia 15 de setembro de 2010, o fazendeiro Osvaldino Teodoro da Silva, acusado de ser um dos mandantes do assassinato do padre Josimo Tavares, foi condenado a 16 anos e 6 meses de prisão. Porém, ele pode recorrer da sentença em liberdade.

Pesquisa no acervo do jornal O Globo, atualizado em 20 de abril de 2017, relata que em 1993, uma nova denúncia, apontou como mandantes do assassinato de padre Josimo Tavares os fazendeiros Geraldo Paulo Vieira, Adailson Vieira, Osmar Teodoro da Silva, Guiomar Teodoro da Silva, Nazaré Teodoro da Silva, Osvaldino Teodoro da Silva e João Teodoro da Silva. Em 1998 Adaílson Vieira, Geraldo Paulo Vieira (pai do Adailson) e Guiomar Teodoro da Silva foram julgados e condenados. Os dois primeiros foram condenados a 19 anos de reclusão e Guiomar, a 14 anos e 3 meses. João Teodoro da Silva faleceu antes de ser levado a julgamento. Geraldo morreu alguns meses depois da sentença. Osmar Teodoro da Silva ficou foragido durante anos, sendo capturado pela polícia somente em 2001, depois de ter sido alvo do programa Linha Direta, na TV Globo. Em setembro de 2003, ele foi condenado, por unanimidade, a 19 anos de reclusão.

Geraldo Rodrigues da Costa, o executor do crime, foi condenado, em 1988, a 18 anos e 6 meses de reclusão. Conseguiu fugir da penitenciária por três vezes, mas, depois da última fuga, nunca mais fora encontrado. Há informações de que faleceu durante fuga após um assalto na cidade de Guaraí, Tocantins. Outro jagunço que participou do assassinato de padre foi Vilson Nunes Cardoso, que até hoje está foragido.

Dona Olinda, mãe de padre Josimo Tavares ainda a pouco tempo vivia e morava na região do Bico do Papagaio.

Publicidade

Fale com a gente pelo e-mail

contato@jornalosertanejo.com.br
Participe com sugestões, dicas, comentários e denúncias.

Enquete

Resultados
Publicidade
Publicidade