10 de Junho de 2017 às 10:52Aquino José

Boiadas provocaram sobressaltos em Barretos


No passado, bois descontrolados causaram transtornos aos barretenses. (Aquino José)

Durante muito tempo, Barretos conviveu com os estouros de boiadas. Na terra do gado e do peão de boiadeiro, os antigos moradores contam muitas histórias sobre tais acontecimentos. A insegurança era constante. Alguns episódios ficaram famosos.

Não foi uma boiada, mas um boi “fumaça” que fez estripulias no centro da cidade no dia 25 de abril de 1940, por volta do meio dia. Desgarrado da manada, o animal foi acossado na rua 14 por dois peões. O “bicho” escapou dos boiadeiros e seguiu pela avenida 17 até a Praça Francisco Barreto.  Adentrou a Casa Oriente, onde funcionava a alfaiataria de Alcino Abdala.  Laçado, provocou estragos na loja. Os prejuízos foram avaliados em 500$000. Na confusão, o proprietário do estabelecimento machucou um braço.  Mas tudo não passou de um susto, com algum xingatório.

A 11 de abril de 1943, o editorial do “Correio de Barretos” pedia a abertura de nova estrada boiadeira. Segundo o jornal, os moradores entre as ruas 4 e 8, avenidas 15 a 31, estavam apavorados com os frequentes e graves desastres, especialmente os ocorridos durante os estouros de boiadas, com animais invadindo casas e quintais. Na época, um abaixo-assinado contendo mais de 500 assinaturas, reivindicava a mudança do corredor boiadeiro da rua 4. O documento foi entregue ao prefeito Fabio Junqueira Franco.

Dois anos depois, a 24 de junho de 1945, após a missa em louvor a São João Batista, celebrada na matriz do Divino Espírito Santo, um estouro surpreendeu os fiéis que saíam da Igreja e assustou os moradores da cidade. As súplicas eram ouvidas à distância:

-- Valha-me Nossa Senhora dos Aflitos!

-- Socorra-nos Menino Jesus!

-- Acuda-nos Virgem Maria!

-- Defenda-nos São José!

Apesar das preces ou em razão das orações, apenas um boi atacou e chifrou o sapateiro Camilo Simão, deixando-o caído ao solo, na Praça Francisco Barreto. A vítima foi socorrida pelo dentista Narciso Antônio Junior.

Filho de comissário, Armando Garcia, misto de policial e peão, diz que muita gente da cidade pensa que “estouro de boiada” é “explosão” de animais, com reses voando pelos ares. Explica que qualquer coisa ou fato inesperado pode assustar a manada que segue o destino da engorda ou abate. Então, o rebanho corre incontrolável, compacto, com uma força descomunal. Não há cerca que aguente... não há rio que segure... nada o detém.

O sucesso sertanejo “Boi Soberano”, composto por Carreirinho, Izaltino Gonçalves de Paula e Pedro Lopes Oliveira, narra um transporte de boiada em que houve um estouro na entrada da manada em Barretos. Um animal salva o menino que brincava na rua, rebatendo com os chifres os bois que vinham passando, evitando assim que a criança fosse pisoteada.

No dia 21 de agosto de 2002, Izaltino Gonçalves de Paula, autor da letra, foi homenageado no Ponto de Pouso, no Parque do Peão. Na ocasião, revelou que o enredo da música “Boi Soberano” era pura invenção. Na época que escreveu a letra ele nem conhecia Barretos. A primeira gravação foi em 1954, com Zé Carreiro e Carreirinho. Depois vieram outros, como Tião Carreiro e Pardinho.

No dia 7 de junho de 1965, segunda-feira, aconteceu um dos últimos estouros que se tem notícia em Barretos. Mais de 300 bois que estavam sendo conduzidos ao Matadouro Minerva, se espalharam pela cidade, principalmente pelas praças e ruas centrais. Foi um Deus nos acuda! Gente correndo, boi investindo, o comércio fechando apressadamente as portas, uma confusão enorme.

Depois de duas horas de caçada aos bois, a cidade estava diferente. No jardim da Praça Francisco Barreto, nas ruas, nas avenidas, no bairro Primavera, na Vila Baroni, por todos os cantos, enfim, havia boi amarrado. Uma frota improvisada de caminhões recolhia os animais. Acompanhado do tio Osvaldo, o historiador Bié Machione, viveu a aventura, fotografando animais amarrados em diversos pontos da cidade.  Seis dias depois, instalava a sede de Os Independentes na esquina da avenida 19 com a rua 16, preparando-se para a 10ª Festa do Peão de Boiadeiro.

O jornalista Paulo Flosi ironizou o episódio no jornal “A Semana”, de 13 de junho, com a crônica “Eu Destaco Você”. Piadas sobre o assunto não faltaram. Contou que um lote subiu a rua 20 e parou repentinamente ao ver o semáforo fechado, segundo lhe garantiram. Um touro preto quase teria entrado na igreja matriz à procura do padre Cesar, a fim de pedir ao vigário que o tornasse mascote do BEC, conhecido por Touro do Vale. Uma dama de São Paulo, que estava por passagem em Barretos, teria trepado numa árvore para safar-se dos animais. Ainda abalada com a surpresa proporcionada pelos bovinos, comentou que havia frequentado os mais belos jardins do país, mas nunca tinha visto um lugar com vacas e bois.

Motivo de susto, causos e piadas, os que estouros de boiadas felizmente não acontecem mais. Mas vivem nas lembranças de antigos barretenses. Ou são incidentes desconhecidos da nova geração que se prepara para participar da 62ª Festa do Peão de Boiadeiro, de 17 a 27 de agosto, intitulada “A Festa do Brasil”.

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