22 de Março de 2016 às 16:51Igor Sorente e Aquino José

“Nenhuma pesquisa apontava a minha vitória” – diz ex-prefeito, Nelson James Wright

Nenhuma pesquisa apontava sua vitória, mas coligação sentia viabilidade.


Para Wright, transporte público era problema sério quando assumiu a prefeitura (Foto: Igor Sorente)

Antes de ser eleito prefeito de Barretos na coligação PSDB – PT – PSB, Nelson James Wright foi médico sanitarista que atuou com muita simplicidade e humildade junto à comunidade. Braz Augusto Menezes escreveu em “Tributo a Nelson James” que o ex-prefeito foi um “político humanista e eticamente comprometido com o processo democrático em tudo, mas sobretudo com respeito ao dinheiro público fruto dos impostos de todos os cidadãos (...)”.

A reportagem encontrou Nelson James morando em São José dos Campos, interior de São Paulo, a 438 quilômetros de Barretos, cidade no qual vive a duas décadas. 

O Sertanejo - Os munícipes afirmam que você foi um fenômeno eleitoral naquela época. Como se explica a sua vitória?

Nelson James – Foi um fenômeno porque ninguém acreditava na minha eleição. Havia uma tradição de situação e oposição e a gente entrou na eleição para marcar posição. O PT já tinha disputado eleição sozinho em duas oportunidades, sendo uma com um estudante universitário e outra com Ronaldo Marques. Naquela época, além do PT, o PSB e o PSDB ficou fora da eleição. Acredito que as propostas foram apropriadas. Nenhuma pesquisa apontava a minha vitória, mas a gente sentia que havia viabilidade quando fomos para as ruas.


Conte o segredo de seu sucesso nas urnas.

Acredito que o segredo foi o despojamento financeiro, a união do grupo e principalmente que nós não tínhamos amarrações. É evidente que quando a gente entra numa competição é para ganhar, mas se sabe que não é garantido. A política é uma caminhada de discussão, conscientização e motivação. 


Você pode contar alguns fatos que marcaram a sua eleição?

O que nos impressionou muito foi o comício de encerramento, mas tiveram outros fatos interessantes, como um empresário que se queixou que a gente não fazia comícios, então eu disse que não tínhamos dinheiro para palanque, artistas e som. Com a garantia do anonimato, doou US$ 2 mil e com esse dinheiro fizemos dois comícios: um no Bom Jesus, público no qual mais trabalhamos e o último na Praça Francisco Barreto. A praça estava lotada. Outra coisa que democratizou a eleição foi a TV local, que estava no seu primeiro ano. O Luiz Carlos Luz fazia as filmagens em uma edícula no fundo da casa dele. Tivemos ainda os voluntários do teatro sob a coordenação do Adonias Garcia. Ninguém ganhou dinheiro na campanha. 


Gostaria que você fizesse uma autocrítica da sua gestão como prefeito.

A minha gestão foi pautada no amadorismo, fruto da nossa inocência política. Como a gente não teve atividade política anteriormente em termos de ser vereador, por exemplo, então, não tínhamos dimensão dos complicadores de se administrar uma cidade, com sua pressão e as demandas que isso leva. Acredito que faltou preparo prévio antes de ingressar na Prefeitura. 


O seu governo foi prejudicado por posições do Legislativo barretense?

Não tenho queixas do Legislativo e esse foi um diferencial da nossa administração. Não fizemos nenhum acordo. Na época, a Câmara tinha 17 cadeiras e a coligação elegeu apenas três. Nunca nos preocupamos em negociar maioria. Nós respeitamos os vereados, pois se eles foram eleitos de acordo com a vontade do povo, a gente entendia que não precisava de negociação para que as coisas acontecessem. Felizmente nunca tive problemas com o Legislativo.


Os meios de comunicação da cidade dificultaram a sua imagem perante a população?

Na época da campanha cada grupo de comunicação tinha seu candidato. O Jornal de Barretos apoiava Fauze José Daher e o Jornal O Diário apoiava Hélio Navarro, mas acredito que eles não tiveram nenhuma influência e não denegriram minha imagem, até porque as pesquisas apontavam os candidatos deles em primeiro lugar. Tivemos então uma raia desimpedida para fazer a caminhada.


Seu governo foi uma aliança entre PSDB, PT e PSB. Você acredita ser possível nova aliança reunindo esses partidos em Barretos?

Não sei qual a atual conjuntura da cidade atualmente, pois estou afastado de Barretos há 20 anos, mas na nossa sucessão essa coligação não foi possível e isso foi uma das razões da nossa revolta. 


Você tem mágoas por políticos de Barretos ou pela cidade?

Nenhuma. A gente saiu de Barretos por demanda familiar. Não foi por mágoa.


Tem pretensões de voltar à vida pública? Sonha em se candidatar para algum cargo eletivo?

Não. Estou decepcionado com os partidos políticos, porque eles buscam os interesses de grupo e não os da população. Não existe mais um partido ideológico, nem mesmo o PT. Gostaria que o sistema eleitoral fosse igual aos Estados Unidos, onde qualquer pessoa pode ser candidato sem ter partido. No Brasil não existe fidelidade partidária e os candidatos não são eleitos por ideologia, mas sim por interesses de momento, que uma vez eleitos trocam de partido. Acredito que devo fazer política, mas não necessariamente partidária.


A sua administração construiu o terminal de ônibus. Como você lidou com as críticas de que a concessionária iria quebrar com a integração entre linhas?

Durante a caminhada percebemos que o transporte era um problema sério para o trabalhador e pesava muito no orçamento porque tinha que pagar duas passagens para atravessar a cidade. A ideia foi trazida de outras cidades e a empresa estranhou, pois era uma política pública e resistiu no início, mas depois viu que não teria prejuízo porque o volume de passageiros aumentou. Na época contratamos um técnico na área de transporte para medir o índice de ocupação por passageiro por quilômetro, com isso você estabelece o preço da passagem. Durante a Festa do Peão a concessionária não aceitou o preço sugerido e então abrimos concessão para outra empresa que fez o transporte dos passageiros no primeiro ano e rachou de ganhar dinheiro. A partir daí a Viasa assumiu o erro e entendeu que a Festa é quando todo mundo ganha dinheiro em Barretos. O primeiro ano foi desgastante para a população porque trocamos pontos de lugar, mas depois ficou bom para todo mundo.


Entre as obras da sua gestão estão abertura de ruas e construção de estações de tratamento de esgoto. Era uma necessidade para a época ou você visualizava o futuro?

Era necessidade para a época, pois Barretos já tinha a infelicidade da linha férrea que fazia um “S” na cidade e atrapalhava a passagem dos carros. Depois que o Mário Covas assumiu o Governo de São Paulo na metade da nossa gestão, ele nos deu solução para abertura da Rua 18 e 34 que desafogou os dois lados da cidade. O saneamento é uma questão de saúde pública, são obras invisíveis, mas fundamentais. 


O Touro do Vale subiu de divisão na sua gestão e a administração teve que ampliar as arquibancadas. Isso foi um desafio?

Foi um tormento (risos). Era o primeiro ano de gestão e não havia dinheiro. Por outro lado tinha a pressão da Federação Paulista de Futebol, mas a gente não imaginava que em alguma hipótese haveria 15 pessoas lá dentro. Não era prioridade da administração, no entanto apareceu a demanda e teve que ser atendida.


Que boas lembranças você tem de Barretos?

É uma cidade hospitaleira com um povo muito solidário. É um lugar no qual sempre sonhei criar meus filhos, onde eles pudessem andar na rua tranquilamente. Na área profissional também é uma excelente cidade e fui muito bem aceito na a área da Medicina. 


Logo após sua posse na Câmara Municipal, porque você e seu pai seguiram a pé até a Prefeitura?

A ideia era da participação popular e a gente queria que o povo tomasse posse junto conosco. Saímos da Câmara e nos encontramos na Praça Francisco Barreto e meu pai [James Wright] fez um discurso e a proposta era de caminhar até na Prefeitura. 


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